Praia do Espelho
O limite é de 300 hóspedes por vez. Mas nem todas as pousadas têm diárias que custam fortunas. Só exigem fazer reserva com muita antecedência
Walterson Sardenberg Sº
Matéria publicada na edição 99 (Janeiro/2008) de Próxima Viagem
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No final dos anos 90, o Espelho exibia a pista de pouso e as piscinas naturais refletindo o Sol e a Lua - daí o batismo. Não só. Já então contava com as tais esparsas mansões de veraneio e com o condomínio Outeiro das Brisas, obra de magnatas italianos esparramada sobre uma falésia.
A luz elétrica chegou logo depois. O Espelho, contudo, não mudou tanto quanto se poderia presumir. Até hoje, suas areias permanecem sem ambulantes, sem cadeiras de plástico amarelo (nem branco!), sem garrafas PET e quejandos. Outras mansões, é evidente, foram erguidas, assim como os italianos montaram o único campo de pólo na Bahia. Além disso, as praias vizinhas de Jacunã, Curuípe e Satu entraram no circuito. Como seria de esperar, pousadas inspiradas em Bali, na Polinésia e no "estilo mediterrâneo" - sempre essas referências caipiras! - abriram portas e estenderam seus domínios em refinadas barracas na praia. O próprio Outeiro das Brisas aloja agora uma cópia do Quadrado de Trancoso e cinco pousadas que, para surpresa geral, não cobram mais caro pelas diárias que a média de Trancoso. Pense nisso sem reservas - mas fazendo reservas com alguma antecedência. O decisivo diferencial do Espelho: somando toda a oferta, não dispõe de mais de 300 lugares para hóspedes.
Eis por que seus melhores restaurantes também são para poucos. Ou pouquíssimos. Não pelos preços, façamos ressalva. Mas pelo número de mesas. Elas são apenas duas no criativo e saboroso Restaurante da Silvinha. Um máximo de doze pessoas têm a primazia de almoçar nesse enclave que, dependendo das volúveis marés do Espelho, exige dos comensais atravessar um rio com água pela cintura. (Nos dias de ressaca, a água chega aos ombros!) Silvinha não liga. Prova disso é o fato de fechar seu restaurante no final da tarde. Não só devido às marés, mas, sobretudo, porque a chef-proprietária não se adaptou à luz elétrica, ainda tão recente por aqui. Prefere a dos lampiões.
Outro restaurante para poucos é o Brando, instalado no Outeiro das Brisas. Tem sete mesas, só funciona à noite e abre apenas do dia 20 de dezembro até a Páscoa. A curta temporada não se deve à carência de demanda. A casa comandada por Brando Vitelleschi já conquistou clientes cativos, não só devido à culinária ítalo-tailandesa como em virtude da programação de jazz e blues ao vivo. O entrave é a falta de tempo de Brando, para quem a cozinha não passa de hobby. Nos demais meses do ano, ele se ocupa de sua enorme fazenda no interior de São Paulo e do castelo herdado na Itália.
Tanta exclusividade torna-se apelo para criaturas em busca da bendita privacidade. É o caso de Gisele Bündchen, Leonardo DiCaprio e Michael Schumacher. Eles se hospedaram na Pousada Ponta do Camarão, temporariamente fechada ao público - seus quartos estão reservados por um ano aos convidados da marca de cosméticos Natura. E já que o assunto enveredou pelas grifes, registre-se: também estiveram no Espelho o estilista Valentino e Yves Carcelle, presidente mundial da Louis Vuitton. O espelho, com minúscula, faz parte das ferramentas de trabalho dessas figuras, de rendas maiúsculas.
Outro visitante da praia foi Marcos Valério, também à procura de privacidade - por motivo diverso. O publicitário, ex-calvo, preferiu alugar uma casa a distribuir dinheiro em pousadas e restaurantes. Talvez também preferisse os tempos em que o Espelho estava às escuras.
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