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Trancoso

Calvin Klein e Naomi Campbell passeiam nesta viazinha em que os antigos forasteiros odiavam os quadrados, mas veneravam o Quadrado

Walterson Sardenberg Sº

Matéria publicada na edição 99 (Janeiro/2008) de Próxima Viagem


Marcelo Spatafora

A boa vida em Trancoso, praia consagrada pelas falésias e pela beleza

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Deu no New York Times. Em novembro, o jornal publicou mais uma reportagem sobre Trancoso. A matéria incentivava os conterrâneos a desembarcar em Salvador, visitar o Pelourinho e, sem pestanejar, entrar num vôo para Porto Seguro. Recomendação seguinte do jornalista: jogar as malas em qualquer táxi e instruir o motorista a tocar rapidamente até Trancoso. Sem escalas. O repórter não deu a menor pelota para os demais atrativos do Sul da Bahia.

Trancoso bem poderia se gabar desse deferimento do centenário matutino americano. Quer saber? Também não deu bola. A vila de 12 000 moradores já está acostumada ao deslumbre dos gringos. Dia desses, era o estilista Calvin Klein, bebericando uma caipirinha de saquê debaixo das amendoeiras. No outro, a modelo Naomi Campbell descendo para a praia, toda sorrisos, envolta numa canga colorida. E quem seria aquele animado senhor de cabelos encanecidos e roupas de garotão, sempre afeito a passar meses na vila? Ninguém menos que Ricardo Urgell, o dono da Pacha, rede internacional de casas noturnas. E aquele narigudo de olhos claros e cabelos revoltos, recém-proprietário de uma casa em Trancoso? Pois o nome dele é Renzo Rosso, criador da grife Diesel, o homem que vende índigo a preços de indignar.

As falésias, as praias e o clima estão - claro! - entre os atrativos da vila, seduzindo gringos afortunados pela fama ou afamados pela fortuna. O grande chamariz de Trancoso, no entanto, eles, coitados, não conseguem descrever: o Quadrado. O New York Times tentou. Sem sucesso. Tentemos pois, cientes de que adjetivos como "mágico" e "idílico" estão tão esvaziados quanto os copos de caipirinha de saquê no verão. Melhor limitar-se à objetividade - embora quase sempre frustrada, como sabe o leitor.

Pois bem, o Quadrado é um largo com o tamanho de dois campos de futebol. Essa área separa fileiras de trinta acanhadas e coloridas casas de cada lado, assombreadas pelas amendoeiras. No fundo do cenário, a igrejinha do século 17, plantada sobre um platô, dá fundos para aquele mar baiano embalado pelas marés e as canções de Caymmi. Os idiotas da geografia lembrariam que o Quadrado nem mesmo é quadrado; tem formato retangular. E daí? Está em boa companhia: a Lagoa Rodrigo de Freitas não é lagoa (mas laguna, pois tem ligação com o oceano), a Isla Negra, no Chile, nunca foi ilha; e a Rua da Praia, em Porto Alegre, dispensa explicações.

Até pouco mais de trinta anos, o Quadrado era só uma ex-aldeia indígena, catequizada por jesuítas, transformada em aldeia de pescadores e comandada por um código então inviolável: os moradores de um lado do largo só podiam casar com os jovens do outro lado da área, evitando assim infelicidade genética. A situação-limite desse modorrento povoado foi o desembarque dos hippies paulistas e cariocas, em meados dos anos 70. Não eram, contudo, os bichos-grilos de Arraial d'Ajuda. Mas sim aristorripongas trazendo na mochila não só jeans, fitas cassete, sonhos e livros de Carlos Castañeda. Na bagagem de boa parte desses cabeludos também havia sobrenomes de alta linhagem e certeza de heranças polpudas, além de sedas de verdade. Lá pelos anos 80 e lá vai (muita!) fumaça, eles se deram conta: melhor comprar as casinhas e os terrenos antes que outros aventureiros chiques lhes lançassem mão.

A iniciativa dos biribandos - assim os nativos os batizaram - foi decisiva para transformar o Quadrado no que é hoje: um lugar ao mesmo tempo singelo e sofisticado, brejeiro e cosmopolita, tradicional e antenado, descontraído e elegante; pontual e atemporal. Tal como as canções de Caymmi, aliás. O fato de essa simplicidade toda custar uma fábula para investidores (o metro quadrado no Quadrado vale mais do que na orla carioca!) não chega a ser um paradoxo para quem se hospeda. Afinal, o preço da diária em uma pousada confortável não vai muito além que o equivalente no Arraial d'Ajuda (sobretudo, fora de temporada). Paradoxal, no duro, é a Trancoso injusta e maltratada, crescendo na periferia.

Como costuma acontecer a cada ano, há sempre novidades no Quadrado, agora com pousadas descoladas e lojas de grife. Entre elas, a galeria de arte Fulô, com um esperto café ao fundo. Até o final de janeiro será palco de uma mostra de arte erótica - bem mais lasciva que as amareladas fotos de Sônia Braga e Elba Ramalho nuas em Trancoso, quando eram biribandas de ocasião. Outras novidades serão um botequim ao estilo carioca (servindo chope, caldinho de feijão e bolinhos de aipim) e uma temakeria (casa nipônica especializada em temaki).
Como se percebe, a vila continua tendo olhos tanto para o simples quanto para o elegante. Ao contrário do tolo repórter do New York Times.

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