Arraiald'Ajuda
Muito mais seletiva que Porto Seguro, mas muito menos elitista do que a Praia do Espelho, esta vila confortável ainda mantém o encanto hippie
Walterson Sardenberg Sº
Matéria publicada na edição 99 (Janeiro/2008) de Próxima Viagem
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Quem é fã da axé music deve descartar a santa memória do Normandie, evitar a balsa e ficar, decidido, em Porto Seguro. À exceção das barracas da Praia do Parracho, no Arraial não tem disso, não. Nem lambada. Nem lambaeróbica. Só um ou outro formando desgarrado fazendo lambança.
Arraial não é tão chique quanto Trancoso, resta admitir. Comparar com o fausto da Praia do Espelho, então, nem refletindo muito. Ainda assim, a vila que já hospedou Sophia Loren, Robert De Niro e Steven Spielberg merece destaque nos letreiros. Suas praias se equivalem em beleza às das vizinhas agraciadas pelo saldo bancário. Araçaípe e Taípe, em especial. Sobretudo, a Praia da Pitinga, uma enseada de areias finas, protegidas pelas falésias. Aqui, a francesa Sylvie vende chapéus, a encantadora ex-modelo Flávia vende biquínis, o folclórico Alegria vende cocadas (o alto-astral vem de lambuja) e as garotas anônimas vendem saúde.
Assim como todas as vilas separadas de Porto Seguro pelo Buranhém, o Arraial era só um recôndito lugar em que as mulheres dos pescadores teciam bilros com sementes de dendezeiro, enquanto esperavam os maridos voltar do mar. E eis que desembarcaram os aventureiros, os hippies, os ex-militantes acossados pelos militares. Os cariocas Ari Sobral e Paulo Braz da Cunha pertenciam ao primeiro contingente. Engenheiros de formação, descobriram num rompante que a Bahia lhes dava régua e compasso. Ari, hoje com 60 anos, abandonou os sapatos, enviou um cartão-postal para o ex-chefe comunicando a demissão, passou a compor reggaes e a ministrar aulas de matemática em Porto Seguro - para isso, atravessando o Buranhém a nado. Continua descalço. Paulo, por seu turno, tomou a decisão de aderir aos barcos de pesca, madrugando como jamais ousara no Rio de Janeiro. Ainda mais resoluto, namorou, noivou e casou com Yonala, num espaço de quatro dias. Hoje, aos 57 anos, comanda um restaurante bacana em que todos os pratos custam 13 reais. Dos velhos tempos ficaram o casamento e o apelido: Paulinho Pescador.
Arraial também não guardou muitas reminiscências dos idos do lampião de gás (a luz elétrica chegou em 1981). Os mosquitos, é bem verdade, resistiram, embora em menor número. Aqui, eles se chamam muriçocas - herança do idioma tupi -, mas não é preciso chamá-los. Eles vêm por conta própria. Também não mudaram os romeiros. Eles ainda freqüentam a Igreja de Nossa Senhora d'Ajuda e banham-se na ducha - dita milagrosa - do banheiro construído atrás do templo há 88 anos. Da mesma maneira, uma ou outra pousada mantém o estilo rústico de priscas eras. A maior parte, contudo, oferece espaço e aconchego, embora algumas se percam pelo nome: Pato Loco, Macunaíma, Pimenta Nativa e Oca dos Índios. De resto, até mesmo o centro de agito mudou. Ele já foi na Rua Bróduei, hoje considerada off-Broadway. Agora é a vez da Estrada do Mucugê. Que também se transformou. Era a estrada para a praia, tornou-se uma via alinhada, com pequenas placas de madeira encimando lojas, bares, pousadas. O prefeito paulistano Gilberto Kassab adoraria.
Na Estrada do Mucugê transitam grupos mais heterogêneos do que em Porto Seguro, Trancoso e na Praia do Espelho. São hippies refratários. Ou consumidores de sorvodca - é o que você imaginou: sorvete de vodca (argh!). Também chefs italianos. Ou visitantes portugueses, garotas mineiras, mauricinhos paulistas. Há ainda mochileiros israelitas - tantos que alguns bares e padarias penduram cartazes em hebraico, justificando o apelido: Israel d'Ajuda. Raros visitantes, no entanto, fazem como Emerson Fittipaldi. Há quatro meses, o ex-piloto comprou um amplo terreno de frente para o mar.
Pois é, qualquer pedaço de terra do Arraial tornou-se caro. Já voaram os tempos em que o pintor recifense Geraldo Casado adquiriu uma gleba, trocada por uma castigada motocicleta de 250 cilindradas. Isso foi há quinze anos. O tranqüilo Geraldo ganha a vida pintando bons retratos de índios brasileiros (comprados pelos europeus) e indígenas americanos (exportados para os Estados Unidos). Assim como seu querido Arraial, ele evoca todas as tribos. Menos a do axé music.
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