Porto Seguro
508 anos depois de Cabral, quem está descobrindo esta cidade são os jovens. Em especial, os formandos. Mas ainda há atrações para os maduros
Walterson Sardenberg Sº
Matéria publicada na edição 99 (Janeiro/2008) de Próxima Viagem
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Os pais arrancam os cabelos. Ainda mais ao saber que a rua principal tem o nome, adrede estimulado, de Passarela do Álcool. Sem esquecer o drinque típico, o capeta, ainda mais mefistofélico quando preparado com vodcas que poderiam se chamar Laika - quem bebe sai, no mínimo, latindo. A despeito das refregas familiares, o turismo de formatura aumenta, ano a ano. O sólido argumento "todo mundo da turma vai, menos eu!", seguido de estrepitosa batida da porta do quarto, amolece corações maternos. Só a agência paulista Forma chega a enviar a Porto Seguro, em um único mês, 20.000 criaturas na idade das espinhas.
Embora a cidade ainda ofereça as praias com águas abrigadas e falésias escarlates dos idos do Descobrimento - elas encantaram os 1000 homens da flotilha de Cabral -, o mar não é mais o chamariz dos imberbes, formandos ou não. Sem a vigilância dos adultos, bedéis e relógios, eles preferem a noite. Sorte dos quatro empresários que dividem o comando das casas noturnas e as megabarracas de praia. Eles perceberam: era tolice brigar entre si. Melhor fundar a empresa Porto Night, rechaçar a competição e repartir os lucros, deixando aberta, a cada noite, uma única opção de auê - palavra que, eis a curiosidade, também designa festa no idioma patchohã dos índios ainda sobreviventes nessas terras onde reservas não há.
Se a Porto Night é um cartel, um monopólio, persiste a controvérsia. Mas a axé music deixou de ser. As casas noturnas se tornaram faraônicas a ponto de abrigar pistas variadas fazendo soar, ao mesmo tempo, diversos gêneros musicais - com destaque agora para a música eletrônica, monocórdio tormento de quem já esqueceu as espinhas. Sigamos o calendário. Segunda-feira é noite da Barramares, hiperbarraca capaz de acolher 4.000 pessoas ao longo do dia; e de vender em sua churrascaria 3,2 toneladas de carne em um mês de verão. Na terça, é a vez da Transilvânia, casa temática inspirada nos filmes de terror. Entre outras atrações, acolhe um velório-espetáculo, aberto a freqüentadores de gosto apurado: querendo, podem tirar fotos dentro do esquife. Nas noites seguintes, as barracas Barramares, Axé Moi e Tôa-Tôa alternam-se na gestão, reservando o domingo para a discoteca Alcatraz, emulada da prisão ianque. As celas vips deste cárcere da insensatez custam mais caro - é evidente.
Marmanjos com síndrome de Dorian Gray - a cada dia mais comuns -, incapazes de admitir a inexorável passagem do tempo, misturam-se aos efebos nessa via-crúcis. Todavia, ainda existe (e resiste) vida adulta no mais antigo litoral ocupado da história do país. Longe das megabarracas da Praia de Taperapuan, a Praia do Mutá permanece limpa e serena, vivendo a primeira inocência, como diria Caminha. Nela se aloja o Recanto do Sossego, barraca-restaurante que faz jus ao batismo e serve aliciante culinária italiana baseada em frutos do mar. Raridade? Sim. Ainda mais quando você fica a par de que os donos são quatro italianos buona gente que - ainda! - não brigaram entre si.
Mais adiante - e já próximo a Barramares - uma placa indica a Reserva Indígena da Jaqueira. Pouca gente repara. Mas você não precisa ser antropólogo para louvar a iniciativa dos noventa índios pataxós. Já à beira de se aculturar de todo e ouvir Madonna, eles formaram uma comunidade, retomando a língua e os costumes dos antepassados. O passeio, com o perdão do trocadilho, não é programa de índio. Como também não será visitar o Centro Histórico, agora livre do decoreba sem noção dos guias mirins. Eles cresceram.
Recuperada para a frustrada festa dos 500 anos, a Cidade Alta - com igrejas históricas e esplêndida panorâmica das praias - está tinindo. Aqui, Fernando Henrique plantou uma árvore de pau-brasil e não ousou privatizá-la. Para terminar o passeio no Centro Histórico, jante à luz de velas no Berço das Etnias, restaurante montado por uma inglesa filha de pai brasileiro. Em nada deve aos melhores da dita Costa do Descobrimento.
Recomendar aos formandos esses programas sem capetas - ou esquifes - será tentativa edificante dos pais. A maioria dos jovens, contudo, não ouvirá essas sugestões. Conforme-se. Os fones do iPod, enfurnados nos ouvidos, não costumam permitir escutar nada além das preferências juvenis.
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