Em 53 quilômetros, o sul da Bahia vai mudando radicalmente. É só sair de Porto Seguro, entrar no Arraial d'Ajuda, seguir para trancoso e terminar na Praia do Espelho
Quando os melancólicos portugueses desembarcaram no Sul da Bahia, encontraram um povo festeiro. Os tupinambás comemoravam núpcias, gestações, bebês, ingresso dos rapazes nas armas. Também saudavam estações, pescarias, colheitas, vitórias. A cidade de Porto Seguro mantém a tradição. Promove festanças diárias para milhares de pessoas. A região tem 150 000 moradores, mas comporta o abuso de 37 000 leitos para visitantes - oferta de hospedagem que só perde, no Nordeste, para Salvador. No verão, há vôos semanais do Chile, da Itália. Só da Argentina são dezesseis ao mês. De Portugal, a oferta de fretamentos se estende pelo ano inteiro. Fenômeno curioso: todo o barulho da insone Porto Seguro vai diminuindo, gradativamente, à medida que você entra no carro e segue, descendo o litoral. No Arraial d'Ajuda, o alvoroço é bem mais ameno. Em Trancoso, já não existe. Quanto à Praia do Espelho, o lugar tornou-se um enclave. Pode receber só 300 visitantes por vez. Na mesma proporção em que o barulho diminui, o conforto e o luxo vão aumentando. As aulas de lambaeróbica na piscina se transformam no único campo de pólo da Bahia; os pacotes turísticos mais baratos do país se transmutam em endereços de inviolável exclusividade. De Porto Seguro à Praia do Espelho são míseros 53 quilômetros, rodados em estrada que nem mesmo os tupinambás festejariam. A cada parada, o universo muda em preço, em atendimento, em barraca de praia, em música, em culinária, em bebida e, sobretudo, em estilo. Há quem prefira fincar as férias em um único trecho. Tudo bem. Mas descer essa costa de automóvel gera muito mais do que um tratado antropológico. Rende muita diversão. Tudo isso numa viagem rápida. Que, no mínimo, vale por quatro.
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