O deserto é fértil
Os hotéis de estirpe chegam ao deserto chileno
Henrique Skujis
Matéria publicada na edição 99 (Janeiro/2008) de Próxima Viagem
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Sim, é isso mesmo: chega mais gente aqui do que em qualquer outra região do país de Neruda, Pinochet e Bachelet. Em 2006, foram 120000 forasteiros - mais do que atraíram as consagradas Torres del Paine, no sul do país. Essa legião vem em busca das estranhas atrações do deserto mais seco da Terra - cai menos chuva no Atacama do que no Saara ou no Vale da Morte, nos Estados Unidos. O risco de você encarar uma tempestade é tão grande quanto as chances de a seleção chilena de futebol ganhar a próxima Copa do Mundo.
O mais curioso é que San Pedro de Atacama continua sendo um povoado pequeno com ruas estreitas de terra, casas de adobe, vira-latas se coçando pelas esquinas e bicicletas enferrujadas zanzando sem destino. Não é fácil crer que atrás de muros acanhados ou a 15 minutos de uma gostosa caminhada existam hotéis espetaculares como os mostrados nas fotos desta reportagem. Há quem diga que não combina. Que a cidade deveria se contentar com pousadas simples para receber os "aristohippies" de Santiago e os mochileiros do resto do mundo. Estão enganados.
A paisagem marciana é o grande barato da área. É um visual tão insólito que a Nasa o escolheu para os testes do Nomad, o robozinho bolado na década de 90 para explorar o solo de Marte. Não vem ao caso onde os cientistas da agência espacial americana se hospedaram, mas naquela época, 1997, o único hotel de luxo em San Pedro era o Explora, com seus 51 quartos - e uma fila enorme de gente tentando reserválos.
Hoje, hospedar-se no hotel de 15 milhões de dólares continua sendo tarefa apenas para viajantes que conseguem se programar com meio ano de antecedência. Mas anote outras alternativas: Alto Atacama (recém-inaugurado), Altiplanico, Awasi e, um pouquinho atrás, o Terrantai. Todos abriram as portas em busca do público do Explora: europeus que não se importam em desembolsar até 1000 dólares por uma diária com pensão completa e tratamento vip.
Nada contra os brasileiros. Muito pelo contrário. Demorou, mas, aos poucos, nós também estamos descobrindo o Atacama chique. Nos próximos meses, quem encarar um roteiro por aqui vai poder escolher ainda entre mais dois hotéis de ponta que entram em cena na cidade: o Portillo (não confundir com a estação de esqui na Cordilheira dos Andes) e o Arenia. "Aí, sim, será menos difícil conseguir reserva em San Pedro para os brasileiros mais exigentes", prevê Denise Santiago, diretora da Cia. de Ecoturismo, especializada na região.
CAMINHADA DE VAN
Não se assuste com a palavra "ecoturismo". Ela não significa que você fará caminhadas longas, descerá cachoeiras suspenso por cordas ou deslizará corredeiras abaixo espremido em um caiaque (mesmo porque você há de convir que o Atacama não é lugar de cachoeiras e corredeiras). Os hotéis sabem que seus hóspedes querem mordomia. Eles até encaram uma caminhada, mas desde que uma van com ar-condicionado os leve o mais próximo possível do início da aventura. E se der para não suar, melhor.
Por isso, o Explora, o Alto Atacama e o Awasi contam com uma frota de veículos capaz de motorizar cada um de seus hóspedes a qualquer hora. Quer ir ao gêiser de El Tatio? Sem problemas. Visitar a Laguna Sejar? É só avisar os guias que ficam dando sopa no lobby. Nos passeios "longos" (cinco ou seis horas), prepare-se para um banquete, com direito a toalha xadrez, em cenários deslumbrantes. O mais famoso é a caminhada pelo Vale da Lua, com o pôrdo- sol de um lado e os 5916 metros do Vulcão Licancabur do outro. Nas jornadas curtas, conte com um tupperware cheio de frutas secas e castanhas.
Os hotéis, por sinal, costumam fazer um encontro à noite para decidir os passeios do dia seguinte. Os guias sugerem e, munidos de mapas e paciência, explicam cada uma das opções. Os viajantes não demoram muito para descobrir que aquela terra seca é um parque de diversões.
Tudo tranqüilo e inesquecível. Mas se você, caro leitor, der licença, segue aqui um conselho: além de curtir todas as benesses dos hotéis de San Pedro, bater palmas para as paisagens do Atacama e espiar a cidade através de uma película escura nos vidros da van, quebre o protocolo e peça ao motorista que pare na Calle Caracoles. Os vira-latas, tenha certeza, não lhe farão mal. A caminhada vai lhe sujar a barra da calça, mas também mostrará uma cidade cheia de charme. O chão de terra e as paredes de adobe criam um cenário monocromático de Velho Oeste. Há 13 000 anos existe gente neste lugar, dando de ombros para a falta de chuva. Repare nos chilenos de outras partes do país - principalmente jovens de Santiago em busca de um lugar com jeito de São Tomé das Letras. Eles procuram o deserto para ganhar uns trocos nos hotéis e restaurantes. Dos dezoito guias do Explora, por exemplo, treze são da capital. Turistas europeus dos 8 aos 80 anos também fazem parte da cena. Eles costumam bater pernas pela feira de artesanato atrás da igreja e perto do museu arqueológico Gustavo Le Paige, que, diga-se, também merecem sua visita, dadas as peculiaridades que reúnem.
Se topar deixar de lado a refeição já paga no seu hotel all-inclusive, escolha um restaurante sem medo de errar. Eles podem não fazer jus à excelência e ao encanto dos hotéis, mas colocam à mesa pratos saborosos e vinhos de primeira (lembre-se, você está no Chile, terra de encorpados Carménère). Aos mais empolgados - despreocupados com o passeio agendado para o dia seguinte -, brotam ainda festas em sítios escondidos (você terá de descobrir o local...), que se iniciam à 1 da manhã, quando restaurantes e bares precisam fechar as portas (lei estranha para cidades que vivem do turismo).
Estranho também é o que estão fazendo com os gêiseres de El Tatio, uma das principais atrações turísticas do Atacama. Localizado a 4300 metros de altitude, o campo geotérmico lança jatos de água a mais de 6 metros de altura. O ar fica tomado por uma nuvem de vapor. O problema é que, em busca de energia alternativa, o governo chileno autorizou a exploração da bacia vulcânica em torno desse fenômeno. O consórcio ítalo-chileno que vai tomar conta da futura usina de energia geotérmica garante que os gêiseres continuarão cheios de saúde. Ecologistas e o povo de San Pedro, no entanto, estão com a pulga atrás da orelha. Os hotéis também ficam na mira dos ambientalistas. Apesar de todo o cuidado tomado pelo novíssimo Alto Atacama para não manchar a paisagem, há quem olhe torto para sua instalação em um terreno próximo à Cordilheira do Sal e à Fortaleza de Quitor, cidade fortificada construída há mais de 800 anos, por onde passaram os incas.
Polêmicas à parte, cabe a você desfrutar e esmiuçar estas terras tão diferentes. Se é difícil conseguir uma vaga nos hotéis do Atacama, mais improvável ainda é esquecer a sensação de flagrar os gêiseres, de trilhar as belas e inóspitas paisagens áridas, de curtir um piquenique ao lado de um vulcão ou de simplesmente sujar os pés de terra num povoado romântico, com um povo anfitrião e festeiro, que parou no tempo. Nos bons tempos, diga-se.
ÁGUA, PELO MENOS NA BOCA
Os restaurantes dos hotéis garantem refeições cheias de charme e quase sempre com uma bela vista das cordilheiras dos arredores. Mas vale a pena descobrir os outros sabores da culinária local nos restaurantes da cidade.
CKUNNA, Tocopilla, 359, 56 55 85-1999 - Sente-se no arborizado pátio interno (foto) e prove o filé de novilho com o molho de chañar, árvore típica. Misturado ao mel, tem um delicioso sabor agridoce.
BLANCO, Caracoles, 195, 56 55 85-1164, - Traz decoração moderna, minimalista, com muita cor branca. Oferece massas, carnes e peixes, inclusive sushis. A dica: atum da Ilha de Páscoa ao molho de pimentas.
LA ESTAKA, Caracoles, 259-B, 56 55 85-1164, - Movéis de madeira em um ambiente descontraído, bem ao estilo atacamenho.
TIERRA TODO NATURAL, Caracoles, 271, 56 55 85-1585 - Todo dia há um elaborado menu para saciar os vegetarianos. Pães e pizzas são feitos com farinha integral. Mas não faltam pratos para os carnívoros.
FÁCIL DE CHEGAR
A melhor maneira de desembarcar no Atacama, caso não passe por sua cabeça uma viagem de moto ou de carro, é voar até Calama e, de lá, seguir de carro pela CH23 até San Pedro. Saiba que a maioria dos hotéis oferece esse traslado. A Cia. Nacional de Ecoturismo (11 5571-2525) é especializada na região. Pode organizar sua viagem e conseguir preços mais em conta nos hotéis.
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