Nosso repórter na maior festa do mundo
As incríveis histórias da Oktoberfest de Munique, uma happy hour que dura 16 dias, tem mais público que todo o Brasileirão, gera um mar de euros e, (hic), um oceano de cerveja
Ronny Hein
Matéria publicada na edição 97 (Novembro/2007) de Próxima Viagem
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Engana-se, contudo, quem imagina uma festa burocrática. Os 300.000 espectadores ficam genuinamente empolgados. Muitos deles, sentados nas arquibancadas (por cujos assentos pagaram 35 euros!), revolvem bandeirolas, aplaudem e batem os pés ao compasso dos tambores.
Fotógrafos e cinegrafistas de diversas nacionalidades buscam os melhores ângulos e correm ao lado de carros alegóricos que fariam Joãosinho Trinta bocejar de tédio. Exceto, talvez, por algumas BMWs que, sabe-se lá como, também desfilam entre as alas.
Como no Brasil, o desfile é transmitido ao vivo pela televisão. Mas, ao contrário do Brasil, não tem jurados, nem notas. É apenas o grande corso que abre a maior festa popular do mundo. A Unidos da Oktoberfest é campeã há 174 anos não consecutivos - descontadas as interrupções por guerras e epidemias - e ninguém acha que é armação da Liga das Escolas de Marcha.
No último dia 23 de setembro, prezado leitor, participei do desfile da Mangueira bávara. Não: eu não estava atrás das cordas que seguram a platéia, como seria de supor; nem arquejava entre meus pares de imprensa, obrigados a intermináveis idas-e-vindas no asfalto impecável de Munique.
Por uma confluência de fatores que não vêm ao caso, o destino e o Departamento de Turismo de Munique, puseram-me - acredite! - na carruagem abre-alas dessa megaparada. Principalmente (perdoe-me o destino), o mencionado departamento, cujo poder você já vai poder calcular. É ele - e ninguém mais - o responsável pela Oktoberfest. De seu trabalho resulta um evento que, em 2006, atraiu 6,5 milhões de visitantes para dezesseis dias de festa. Que rende, para a cidade, 1 bilhão de euros a cada ano. Que é, oficialmente, a maior festa popular do mundo, deixando para trás os melhores carnavais e as mais freqüentadas festas juninas. E que, mesmo com esses números colossais, funciona nos mínimos detalhes. Sacou?
Eis que o tal Departamento (maiúsculas, por favor!) tem por norma abrir o desfile com uma comissão de frente formada por sua insubstituível diretora-geral, Frau Dr. Weishäupl (e ai de quem esquecer o título) e convidados estrangeiros. Sabem quantos? Dois! Um pouco-à-vontade dirigente da província de Limpopo, na África do Sul, e eu. Vá lá que eles poderiam ter escolhido o Brad Pitt e a ministra Marta Suplicy. Mas não o fizeram: quem abriu a Oktoberfest de número 174, ao lado de Frau Dr. Weishäupl e do estadista limpopoense, fui eu.
A imprensa brasileira e a imprensa de Limpopo talvez não tenham dado a devida importância ao assunto, mas encarrego-me de preencher a lacuna. Bastou a carruagem, puxada por dois altivos cavalos, deixar a área de concentração precedida por uma banda mui aguerrida e o povo vibrou. Em alguns minutos, parecia que eu, sozinho, havia bebido notável parcela da cerveja que a platéia estava ávida por ingerir.
Trajado com a célebre camiseta de nossa seleção nacional de futebol, sem a sexta estrela, que deveríamos ter conquistado, ali mesmo, um ano antes, comecei a ser aplaudido por milhares de bávaros que, portanto, não me confundiram com Renan Calheiros. Senhoras nas calçadas; famílias nas sacadas, câmeras e sorrisos.
Durante o trajeto, grupos de brasileiros (turistas? Imigrantes?) vibravam com a presença da amarelinha e tentavam, em vão, reconhecer-me. Na Odeonsplatz, uma praça em estilo florentino onde Adolph Hitler tentou tomar o poder pela primeira vez (e acabou em cana), ocorreu-me aproveitar da inesperada notoriedade para mandar uma formidável banana, mas o olhar doce de uma menina de 6 anos, arianíssima, fez com que eu acenasse, sorridente, como Getúlio Vargas.
Cartola em versão bávara
E assim seguimos, destaques da Unidos da Oktoberfest, até a entrada triunfal no Theresienwiese, o imenso recinto dos insaciáveis bebedores de cerveja que é o fígado pulsante desse festival.
Durou cerca de duas horas essa minha incorporação de Cartola em versão bávara. Mas é difícil dizer se não foi melhor entrar no bierhalle com as prerrogativas de convidado especial. Não, senhores: bierhalle não é apenas nome de restaurante alemão. Significa, ao pé da letra, salão da cerveja.
Os alicerces da Oktoberfest são seus doze galpões para beber cerveja. Chamam-nos de tendas. E, de fato, são provisórios. Mas, quando erguidos pela engenharia alemã, parecem prédios indestrutíveis, planejados para resistir a hecatombes nucleares.
A Oktoberfest não nasceu como uma festa etílica. Deixo a história para depois, mas o fato é que, não fosse o diurético líquido que a suporta, seria pouco mais que uma bobagem. Entretanto, ao entrar em um bierhalle, você entenderá a dimensão da coisa. São, todos eles, estádios de tomar cerveja. Comportam, um pelo outro, 10.000 bebedores sentados em cada um. São 100.000 pessoas com apoio para o derrière e uma área de mesa à frente em que cabem uma caneca de 1 litro do cobiçado líquido, um pretzel e um pedaço do animal que vier.
Na parte central do salão, há sempre um tablado para músicos. Até as 18h30, durante todos os dias da Oktoberfest (que depois explico por que começa em setembro), eles tocam músicas da Baviera. É lei. Músicas, confesso, sem grande qualidade melódica. Que, entretanto, combinam com cerveja, como as salsichas pedem mostarda.
Os circunstantes jamais deixam seus lugares. Exceto quando a natureza os impele a expelir o líquido que ingeriram. Para essa finalidade, a organização da Oktoberfest (Frau Dr. Weishäupl à frente) coloca à disposição nada menos que 878 metros lineares de urinóis. Quase 1 quilômetro. E mais 964 privadas. Pouco, muito pouco, a julgar pelas filas de senhoras contorcidas que se observam a partir da terceira hora da festa (que começa às 10 da manhã nos dias de semana e às 9 nos dias úteis).
A idéia, como se vê, é beber cerveja e dela desfazer-se. Nada que você já não tenha feito também. A diferença, talvez, é que, na Baviera, a cerveja faz diferença. A mais antiga lei de alimentação do planeta, datada de 1516, por exemplo, é uma lei bávara. E discorre sobre o líquido, que, dizem, os egípcios inventaram. Nunca revogada, ela determina que cerveja, de verdade, é apenas a infusão que congrega água, malte, lúpulo, cevada e fermento. O que houver a menos a descaracteriza. E nada a mais é aceitável, nem mesmo qualquer tipo de conservante, que os bávaros desprezam, porque para haver necessidade de conservação é preciso que haja escassez de consumidores - jamais registrada por aqui.
Por trás dessa ladainha toda, porém, há um cartel: as seis cervejarias oficiais de Munique. Nenhuma outra pode entrar na festa, por mais poderosa que seja. Na Oktoberfest, todos os bierhällen pertencem às seis marcas: Lowenbräu, Hofbräuhaus, Augustiner, Spaten, Hacker-Pschorr e Paulaner.
Nem é preciso dizer que os herdeiros desses rótulos são os homens mais ricos dessa província de 12 milhões de habitantes, que liquidifica-se aos pés dos Alpes e que tratam, genericamente, aos demais alemães e aos estrangeiros como preussen (prussianos). Petulância, entretanto, reduzida desde 18 de outubro de 1848, quando, juntos, eles ousaram aumentar o preço da cerveja e foram contragolpeados por uma revolta popular que lhes destruiu as fábricas. Desde então, aprenderam a comportar-se.
Os bebedores que vejo à minha volta nem devem ter idéia dessa antiga inconfidência bávara, mas não sou eu, com a camisa da seleção, quem vai revolver o passado.
Depois da glória do desfile, estou satisfeito com meu assento garantido - as pessoas disputam-nos a tapas o ano inteiro - e com a possibilidade de observar. Há uma outra abertura da Oktoberfest, além do desfile. Na verdade, ela a precede. É a inauguração política, que a Baviera acompanha com a ansiedade com que vemos o último capítulo da novela das 8.
A martelada da glória
Ocorre sempre no sábado em que a festa é aberta. Após a chegada das carruagens de todas as cervejarias, cada uma delas transportando barris para os galpões onde se beberá-a-não-mais-poder, as autoridades locais dirigem-se para um dos bierhalle. O mais tradicional deles, chamado Schotenhammel. Reúne-se, nesse recinto, a fina flor da sociedade bávara. Os deputados de todos os partidos, inclusive um, cuja sigla, FDP, definiria os sentimentos dos eleitores brasileiros em relação a seus representantes.
O protocolo pede a presença do prefeito de Munique, Christian Ude, e do assim chamado presidente da Baviera, Edmund Stoiber. Ambos são chamados para o momento- chave da festa: a ocasião em que o prefeito martela a torneira no primeiro barril da Oktoberfest. É um suplício. Como só ocorre ao meio-dia de sábado - e nesse instante o Theresienwiese já está ocupado por meio milhão de sedentos espectadores -, a martelada oficial define o momento em que as pessoas podem começar a beber. Antes disso, ainda que tenham biritado em casa ao amanhecer, os presentes só recebem água! A cacetada oficial, filmada, fotografada, digitalizada, é outro desafio. Se o prefeito não conseguir introduzir a torneira no barril com menos de três golpes, sua carreira estará inevitavelmente encerrada. Se, entretanto, der certo (e os prefeitos, segundo dizem, treinam com semanas de antecedência), sua popularidade estará garantida. E ele proferirá a frase mais famosa da Oktoberfest: "O'zapt is!" ("Está aberto!"). A declaração será seguida por uma salva de doze tiros de canhão e toda a malta espalhada pelo recinto começará a receber, em segundos, seu quinhão de cerveja.
O recinto, nesse caso, não é apenas o Schotenhammel, mas toda a área de 310.000 metros quadrados onde ocorre a festa. Com a sincronia de um câmbio seqüencial da Porsche, todas as torneiras, de todos os tonéis no Theresienwiesen - ou Wiesen, como é chamado - começam a jorrar cerveja. De um tipo só, clara, cristalina e sempre na mesma medida, 1 litro, porque, para saciar tanta sede, não há tempo de emitir comandas ou oferecer alternativas. A exceção são os pequenos estabelecimentos que obtêm concessões para funcionar à sombra dos grandes galpões. Neles - são 600, entre atrações de quermesse, avançadíssimos brinquedos de parques de diversão, lojas que vendem salsichas de meio metro e até quiosques de caipirinha -, é até possível tomar cerveja escura e vinho.
"Quer largar do meu suspensório?!"
Existem, nessa periferia, brinquedos históricos, como carrosséis que funcionam apenas no Wiesen há mais de oitenta anos ou um espetáculo de ilusionismo macabro, que inclui uma sangrenta e mui apreciada decapitação.
É a região freqüentada por famílias, petizes bávaros de lederhosen (bermudas de couro) e bonequinhas loiras que crescem à espera do dia em que vão poder migrar das montanhas-russas e das rodas-gigantes para os ruidosos galpões ao lado.
Sim, meus amigos: apesar de se ter transformado em um evento internacional, a Oktoberfest ainda é, na essência, um evento da Baviera. Originam-se da própria província, 72% dos visitantes; só 15% vêm do Exterior. Ou seja: "apenas" 1 milhão de estrangeiros batem seus copos nos salões de cerveja a cada "Prosit!" (Saúde!) incitado pela orquestra. Os choques entre canecas também são dignos de menção. No início de cada dia, os vidros retinem civilizadamente. Duas horas depois, é de espantar que as canecas - feitas, suponho de alguma liga de titânio - não se lasquem. Seis horas mais tarde, contudo, o que se observa são violentas colisões frontais, ainda assim sem danos. A essa altura, o povo sapateia sobre as mesas. Os entreveros (traduzindo: "Merrmão, chega pra lá que essa loira é minha" ou "Quer parar de segurar no meu suspensório?!") são discretamente apartados por um batalhão de seguranças.
Prudentemente, Frau Dr. Weishäupl - minha companheira na comissão de frente, lembra-se? - não permite que se construa qualquer estacionamento nas imediações do Wiesen. O eficiente sistema de transportes públicos de Munique se encarregará de despejar os sobreviventes em suas casas e hotéis, evitando choques de automóveis que, afinal, não são sólidos como canecas.
Como todo evento dessa grandeza, a Oktoberfest tem uma história por trás. E como quase toda história desse tipo, ela tem pouca graça. Começa, ao menos, com o casamento de um príncipe, Ludwig - o futuro rei Ludwig I, da Baviera - com uma princesa de nome singelo: Therese von Sachsen-Hidburghausen. Deu-se o matrimônio no longínquo 12 de outubro de 1810, com grandes festas que incluíram a primeira aparição da Unidos de Oktoberfest e uma corrida de cavalos realizada numa área verdejante próxima a Munique, conhecida como Wiesen (pastagem). Reconheceu?
O príncipe gostou do furdunço e ordenou que o repetissem anualmente, com a adição de uma feira de produtos agrícolas dos camponeses da Baviera. Eis que, desde os primeiros anos, percebeu-se que o povo ia em massa à festividade. Muito menos interessado, contudo, em corridas de cavalo e abóboras gigantes do que na cerveja farta que se servia.
Invertido o foco do evento, os cavalos foram aposentados, a feira agrícola tornou-se uma pequena atração esporádica e a cerveja passou a reinar.
Como o inverno pode ser inclemente nessa região - e depois de algumas edições nas quais o frio quase impediu os bebedores de localizarem o indispensável equipamento de escape de líquidos -, decidiu-se que a Oktoberfest terminaria, dali em diante, no primeiro domingo de outubro. Assim preservou-se a ligação com outubro, ainda que a maior parte do evento ocorra mesmo em setembro, quando a chance de o Sol esquentar a Baviera é um pouco maior.
Má notícia apenas para algumas das coletividades bávaras, que tiveram a vida encurtada. A dos galináceos, por exemplo. Nada menos que 494.135 frangos foram devorados na Oktoberfest do ano passado. Os suínos foram afetados em 144.635 pares de salsichas e sofreram a extração de 43.492 joelhos. Deram a vida para que a cerveja não topasse com estômagos vazios, 102 bois.
Em compensação, amigos, a Unidos da Oktoberfest desfilou sem percalços. Ganhou de novo, com uma pequena mãozinha de Limpopo. E do Brasil.
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