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Maré de sorte

A temporada de cruzeiros, que começa em outubro e vai até março, tem número recorde de transatlânticos e levará mais de 400.000 passageiros a destinos no Brasil e em outros três países

Matéria publicada na edição 95 (Setembro/2007) de Próxima Viagem


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"Nunca, na história deste país, se viajou tanto de navio como agora." A frase poderia se encaixar perfeitamente num dos discursos do presidente Lula, se o tema cruzeiros estivesse em pauta. E, dessa vez, não haveria exagero nenhum. Realmente nunca se viu uma temporada como esta para o segmento. A oferta recorde de quinze transatlânticos - sem contar o Grand Amazon, que volta a navegar nas águas tranqüilas do Rio Amazonas - representa um avanço de quase 40% em relação ao ano passado.
MSC Cruzeiros, CVC, Costa Cruzeiros e Sun & Sea, responsáveis pela vinda dos navios, festejam um crescimento superior a 30% na ocupação dos cruzeiros, o que fará com que mais de 400000 pessoas naveguem pelas costas brasileira, uruguaia, argentina e chilena, de outubro a março. "A estabilidade econômica, os preços competitivos e os inúmeros atrativos embutidos nesse tipo de viagem, aliados a um grande investimento de marketing, organização e, ainda, a qualidade dos serviços, resultam num mix de custo-benefício fantástico", avalia Adrian Ursilli, de 36 anos, diretor comercial da MSC.
Apoiado na resposta positiva dos clientes, o setor não pára de crescer. Em 1994, eram três navios e menos de 20 000 passageiros. Na temporada 2000/01, o número subiu para cinco embarcações e 70000 viajantes. Hoje, sozinha, a pioneira Costa Cruzeiros, prestes a completar sessenta anos de atividades, supera essas cifras. "Só a nossa empresa tem três transatlânticos e vai levar 98.000 pessoas, 24.000 delas, estrangeiras", conta Renê Hermann, de 53 anos, diretor-geral para a América do Sul. O aumento da oferta, a desvalorização do dólar, a possibilidade de conhecer vários destinos e a facilidade de pagamento são outros fatores apontados por Hermann para explicar esse "boom" dos cruzeiros, que, ressalte-se, nem precisou se valer da atual crise aérea para continuar arregimentando viajantes.

As resistências iniciais aos cruzeiros foram caindo, uma a uma, ao longo dos anos. Hoje, não é mais considerado programa caro e chique, próprio para milionários, e nem de pessoas idosas. Com a vinda dos grandes transatlânticos, até o famoso e temível balanço no mar passou a ser ignorado. "Temos feito pesquisas com nossos clientes e a última apontou 90% de índice de satisfação nas viagens. Os preconceitos estão desaparecendo", revela Ursilli.
Famílias, casais, grupos de amigos e, por fim, o mercado corporativo, com seus eventos diversificados, são, pela ordem, os principais públicos dos cruzeiros. A faixa etária mais significativa vai de 35 a 45 anos, e as diárias custam a partir de 230 dólares, incluindo cinco refeições e toda a infra-estrutura de lazer e entretenimento a bordo.
"Até mesmo quem faz reserva só para ver o show do Roberto Carlos acaba gostando do passeio e volta. Temos números que mostram que 80% dos que viajam pela primeira vez retornam em três anos", complementa Hermann.

Apesar do otimismo, os dois executivos não acreditam que a média de crescimento se manterá nos próximos anos. "A tendência é estabilizar. Chegamos quase a um ponto de equilíbrio. Talvez nos próximos dez anos tenhamos vinte navios, mas isso vai depender da expansão e da melhoria da infra- estrutura e da construção de novos portos", prevê Ursilli. "Ilhéus, por exemplo, é um ótimo destino, mas o porto local só comporta dois navios de cada vez", exemplifica Hermann. Hoje, só dezessete portos brasileiros têm capacidade para receber as grandes embarcações, a maioria administrada pela iniciativa privada.
Adam Goldstein, presidente da Royal Caribbean International, uma das gigantes do setor, esteve no Brasil para anunciar o lançamento de novos navios e aproveitou para visitar o Porto de Santos, considerado chave para o segmento. Ele vê progressos em curto prazo, mas diz que, em longo prazo, será preciso aprimorar a estrutura geral. "Prefiro falar em oportunidades futuras, pois o Brasil é um mercado novo, com muito potencial. À exceção dos Estados Unidos, com seus 8 milhões de viajantes, quarenta anos de experiência e maior maturidade, os demais envolvidos, como Ásia e Europa, colocam atualmente em discussão os mesmos problemas que os brasileiros", completa.
Alheios a números, recordes e previsões, os viajantes querem mesmo é saber dos shows, festivais gastronômicos, conforto, segurança, opções variadas de lazer e boa vida em alto-mar. Afinal, um pouco de mordomia não faz mal a ninguém!

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