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Sob o sol da Andaluzia

Uma viagem de carro pela Espanha sanguínea, poética, exacerbada, quente e inspirada

Ronny Hein

Matéria publicada na edição 95 (Setembro/2007) de Próxima Viagem


Marcelo Spatafora

O venenciador extrai o sherry (produzido em Jerez) do barril com precisão e arte

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Os 2500 quilômetros da rede de Carreteras de Andaluzia são muito bem pavimentados e sinalizados. Os nomes das localidades são quase sempre fáceis de memorizar, quando não familiares - como Granada, Sevilha ou Málaga, cidades conhecidas, seja porque fazem parte da história, seja porque estão na letra de algum bolero. Dirigir por aqui é fácil e seguro, exceto nos bairros históricos, onde as ruelas foram planejadas para o tráfego de pedestres e cavalos, fato que explica a ausência de estacionamentos e a notável quantidade de veículos com avarias na lataria. As distâncias, também, são exeqüíveis. Você nunca precisará rodar mais que uma centena de quilômetros por dia para perfazer um roteiro atrativo, às vezes estarrecedoramente belo, com pouso e repasto de qualidade. É, enfim, um lugar ideal para viajar de carro, exceto, talvez, no verão, quando a visita das ondas quentes do vizinho Deserto do Saara trazem temperaturas ao redor dos 50 graus e forçam os andaluzes a longas siestas que deixam as cidades amarelas e vazias.
O que distingue a Andaluzia de outras jornadas, porém, não é propriamente o que você verá pela janela do automóvel. Ao ocupar, quilômetro a quilômetro, as terras áridas dessa porção da Espanha que toca na África, os caminhos o levarão ao risco de devanear.

Situação que talvez ocorra nos olivais, que se estendem até onde os olhos alcançam. Seu aroma embriagante é um convite a imagens hipnóticas. Bailaoras que dançam o flamengo ao ritmo das palmas e de um lamento ancestral. Em seus rostos o brilho das labaredas, que agora já estão queimando corões e torás, atendendo à fúria inquisitória de Torquemada. O ódio contra mouros e judeus é patrocinado pelos navios carregados de ouro da América, que imediatos de Colombo depositam às margens do Guadalquivir, sob o olhar sensual das marquesas ocultas pelas treliças das janelas de muxarabiê.
São cenas coloridas, onde predomina o púrpura das capas dos toureiros, que sapateiam a dança da morte diante de miúras furiosos. A retreta e a rêfrega. "Um autêntico drama religioso", como definiu García Lorca, morto pelos fuzis de uma guerra mais recente. Ao olé da platéia sucede-se o clamor dos muezzin, chamando o povo para as preces do alto dos minaretes. Os artesãos, que esculpem, em gesso, pó de mármore e granito, as filigranas do palácio názrida da Alhambra, descem para as abluções e rezam virados para Meca. Outros, de outra fé, hão de revestir os minaretes com torres góticas, encimá-las com a cruz da dor de seu messias e tomar posição defensiva nas velhas fortalezas que ocupam os cerros.
Aos vencedores, a glória de desfilar sobre os garanhões andaluzes, treinados para a marcha ou para a valsa. Aos derrotados, o caminho do exílio, a marcha lenta sob o sol causticante dessa terra que é quase uma extensão do deserto - e, no entanto, tem laranjeiras carregadas de frutos amargos nas calçadas das cidades, uvas palomino de onde se extrai o xerez e oliveiras retorcidas sorvendo da terra ressequida o mais saboroso dos azeites.
Você pode perfeitamente optar por fazer uma viagem de ônibus pela Andaluzia, ouvindo a preleção monótona dos guias de turismo e, ao final, levar para casa um leque e um pôster de touradas adquiridos em qualquer boa casa do ramo de suvenires. E ainda assim será satisfatório: haverá fotos da Alhambra, registros de algumas das 850 colunas da Mezquita de Córdoba - assim mesmo, com z - e um flagrante da turma passeando de carruagem na frente da Giralda, em Sevilha.

Sua viagem, porém, será muito mais proveitosa a bordo de seu próprio carro, explorando os vilarejos do caminho. Lugares como Priego de Córdoba, que escondem preciosidades como as ruelas mouriscas do bairro La Villa. Ou como Carmona, cujos vestígios romanos remetem ao tempo em que, nos mapas de César, a Andaluzia chamava-se Bética e já fora antes ocupada por fenícios, gregos e cartagineses. E haverá também - basta procurar - traços dos visigodos que vieram mais tarde, uma coleção de relíquias multiétnicas a comprovar que muitos outros andaram por essas paragens antes de você.
Mas o mais espantoso da Andaluzia não são seus castelos, nem suas canções, nem sua gastronomia, nem mesmo sua gente genuinamente alegre e hospitaleira. O que faz dessa região um lugar único na crônica dos povos é o fato de que, por quase 800 anos, aqui ocorreu um episódio sem precedentes, nem sucedâneos: a convivência pacífica e frutífera dos seguidores das três principais religiões monoteístas: cristãos, muçulmanos e judeus.
Claro que havia qüiproquós, pendengas e atritos, mas, na maior parte do tempo - estamos falando de um período que se inicia no ano 711 e termina em 1492 - a tolerância mútua produziu uma prosperidade material e intelectual sem paralelo na história.
As marcas desses oito séculos são, em última análise, as atrações turísticas principais dessa área, que ocupa um sexto do território espanhol e abriga quase 8 milhões de habitantes. Pelo menos do nosso ponto de vista. Olhando pela ótica fria e objetiva dos dados oficiais, o turismo que enriquece a Andaluzia é o dos europeus do norte em busca do calor da Costa do Sol. A faixa litorânea onde ficam Marbella, Puerto Banús e Torremolinos, entre outros balneários, é ocupada por boa parte dos 26 milhões de turistas que visitam a região. São alemães, ingleses e escandinavos, que ali fundeiam seus iates de milhões de dólares e ali aperfeiçoam seu suíngue, num dos 65 campos de golfe construídos nos últimos anos.

Mas não é essa Andaluzia de muitos condomínios e pouca alma que inspirou Picasso, Segovia, Lorca e ilustres imigrados como Virginia Woolf, Ernest Hemingway e Washington Irving.
O espírito andaluz está muito mais nas juderias (os antigos bairros judeus), nos alcázares (os castelos mouros) e nas sacristias - que é como se chamam os espaços nobres das bodegas, onde os convidados ilustres provam o vinho mais nobre da casa. Ou na siesta, a velha tradição do apagão vespertino, quando as cidades fecham suas portas e janelas, não há viv'alma nas ruas e um silêncio ancestral substitui o barulho dos carros e o burburinho das praças. Mais que todos os outros espanhóis, os andaluzes respeitam a siesta com devoção quase religiosa. Vem daí a fama de malemolência que, aliada ao espírito festeiro, à miscigenação e ao prazer da dança fazem da área uma espécie de Bahia espanhola.
Quase todos reservam a porção mais ensolarada do dia para uma soneca sem culpa; se você, contudo, circular pelos bares das grandes cidades - como o célebre El Pimpi, de Málaga, favorito do malagueño Antonio Banderas - vai descobrir que mesmo nessas horas tórridas, há quem se entregue ao prazer das tapas e, claro, das acaloradas discussões sem as quais o sangue espanhol não alcançaria a temperatura adequada.
As tapas, hoje convertidas em instituição nacional, são uma das grandes criações andaluzas. Trata-se do hábito de comer aperitivos em companhia da bebida - o que você, provavelmente, também faz. A diferença, aqui, é a variedade interminável do cardápio. Ao jamón pata negra (um dos mais famosos presuntos curtidos da Espanha) segue-se uma porção de lulas, berinjelas embebidas em azeite com alho e assim por diante. Em alguns lugares, como Granada, nem se pagam pelos acepipes. A cada copo de bebida pedido, uma nova porção aparece.

Fique atento à conversa. Discute-se política e futebol, como em toda parte; mas, com a mesma eloqüência, debatem-se a performance dos toureiros, o aguerrimento dos touros, as decisões do presidente da arena, temas de causar aquela irrefreável vontade de acorrentar-se que acomete, vez por outra, os membros do Greenpeace.
"Não há lugar no mundo onde um touro tenha a chance de viver até os 5 anos de idade e morrer, com dignidade, sob o aplauso do povo", brada um defensor das touradas, abrindo uma exceção à India, onde os bovinos são sagrados (e esquálidos, como faz questão de lembrar).
Os temas flamencos de Paco de Lucía também surgem durante o tapeo, mas os touros levam a conversa muito mais longe. De forma geral, os andaluzes concordam em considerar as touradas de hoje muito menos gloriosas e encarniçadas que as do passado. Alguns deles chegam a verter lágrimas ao lembrar o dia em que Manolete, o maior de todos os matadores, foi ferido de morte pelo touro Islero, na arena de Linares, Província de Jaen. E se, ao ouvir a história, você sentir uma alegria interna pela rara vitória do touro, não ouse expressá-la em voz alta. Seria o mesmo que elogiar a barra de direção da Williams que matou Ayrton Senna.
Essa é a alma andaluza, uma complexa - às vezes incompreensível - mistura de sentimentos, todos eles exacerbados. Ninguém duvida em atribuir essa natureza peculiar à miscigenação racial que gerou essa gente. Há gotas de sangue vândalo nessas veias. Entre os anos 400 e 700, foi esse povo que ocupou a região, a que chamou Vandalucía, origem evidente do nome que até hoje permanece.
Depois vieram os mouros, que se instalaram em Córdoba, fundaram um califado e deram início a um dos mais longos períodos de prosperidade do sul da Espanha. Da glória daquela civilização, o vestígio mais evidente é a impressionante Mezquita de Córdoba, com seus famosos arcos sustentando um templo com o tamanho de 1 alqueire.

A mesquita, mais tarde transformada em catedral, é ainda hoje a terceira maior do mundo, atrás apenas das de Meca e Medina. A curiosa mistura de traços muçulmanos e cristãos em sua arquitetura é uma amostra do que você vai encontrar durante toda a sua viagem pela região. Casas de inspiração mudéjar, que é como se chama o estilo preferido dos muçulmanos que ficaram na Espanha após a ocupação cristã. Outras de concepção mozarabe, que era a forma de construir dos cristãos que viveram sob o domínio árabe. Tudo isso nas imediações de sinagogas e ruelas de comércio outrora ocupadas pelos judeus, com os quais os povos dominantes compartilhavam espaço, idéias e negócios.
O bairro da Juderia, em Córdoba, é local de visitação obrigatória. Ali se emaranham algumas das mais estreitas ruelas do mundo. Se sua intenção for reconstituir a história de maneira cronológica, Córdoba, aliás, é um ótimo início de viagem, até porque também tem uma antiqüíssima ponte romana sobre o Rio Guadalquivir. Pelo mesmo critério, Sevilha deveria ser sua última parada. Ali funcionou a capital da Espanha à época dos reis católicos, que encerraram, à força, a antiga convivência. Sevilha também guarda resquícios de seus renegados antepassados, mas suas principais atrações - a Giralda, o Arquivo das Índias e os Reales Alcázares - são testemunhas de um novo apogeu, aquele que nasceu em 1492 com a expulsão da última dinastia árabe de Granada e a conquista da América por Cristóvão Colombo.

A Giralda é a maior catedral gótica do mundo e possui toda a riqueza proporcionada pelo ouro extraído do Peru; o Arquivo das Índias guarda 86 milhões de páginas de documentos sobre as expedições às Américas, 90% dos quais ainda nem foram estudados, e os Reales Alcázares lembram o aterrorizante poder dos reis que, em nome de Cristo, promoveram a Inquisição.
Se, entretanto, em vez da história, você seguir a lógica da geografia, os caminhos hão de levá-lo a Jerez de la Frontera, na Província de Cádiz. Há muita história também por lá, mas, em Jerez, os destaques são a Andaluzia dos vinhos, do xerez e do brandy, das bodegas incomensuráveis com milhares de barris acumulando o líquido que há de esquentar o sangue de outros povos mais frios.
Jerez, também, é a terra da Real Escola Andaluza de Arte Eqüestre, uma espécie de templo sagrado da equitação. Ali fica a plêiade de cavalos e treinadores espanhóis, cuja sinergia resulta em magníficos espetáculos de adestramento e sincronia. Também em Jerez, a Yeguada de la Cartuja desenvolve um trabalho de preservação dos belos cavalos cartujanos - cujos resultados podem ser apreciados em espetáculos semanais no picadeiro da propriedade.

De Jerez para leste, a terra plana da Andaluzia se encrespa e as pedras vêm à tona na Serrania de Ronda. Nesse trecho, menos concorrido mas mais genuíno, ficam os chamados Pueblos Blancos, que são exatamente o que o nome diz: pequenos e íngremes povoados de casas caiadas formando pequenos mosaicos brancos no alto das colinas. De longe não parecem mais que duas ou três ruas, via de regra terminando num despenhadeiro. Lá estão, porém, todos os elementos da grande saga moura em terras ibéricas: os pátios andaluzes com suas pequenas fontes para o ritual da ablução, os minaretes transformados em campanários, as muralhas marcando a luta pelas fronteiras. Arcos de la Frontera é um desses pueblos - e o sufixo, assim como em Jerez de la Frontera, marca o que foram, um dia, os limites entre os reinos muçulmanos e a Espanha cristã.
Mais adiante vem Ronda. Mais que uma cidade, Ronda é um inviável acidente geográfico. As casas ficam no alto de dois tabuleiros que se erguem 100 metros acima do vale, com paredes empinadas como as de um cânion. Uma enorme fenda entre os dois tabuleiros racha a cidade ao meio. Desde o século 18, porém, num prodígio de engenharia, uma ponte de pedra une os dois lados do desfiladeiro.
Pare o carro e explore a cidade a pé. Ronda é considerada o berço da tourada. Foi ali, na Plaza de Toros de Maestranza, que Pedro Romero desenvolveu as regras escritas do combate, antes apenas praticado em fazendas e praças, sem qualquer critério oficial. A própria arena é a mais antiga da Espanha (de 1785) e os embates que sedia, em setembro, são antológicos.
Os novos matadores (sim, a profissão continua vicejando na Espanha, especialmente na Andaluzia) sonham, durante o aprendizado e a carreira, com seu dia de glória na Maestranza de Ronda. Aficionados do gênero fazem do vilarejo sua meca; um deles, o ator e diretor Orson Welles, pediu expressamente que, quando morresse, suas cinzas fossem lançadas na Estância dos Ordoñez, outra dinastia de toureiros de Ronda. A ordem foi cumprida e os restos do criador de Cidadão Kane repousam sob os cardos de uma das serras da Andaluzia.

No próximo trecho, você vai se refrescar com um pouco da brisa da Costa Dourada e deve pernoitar no Porto de Málaga. Ao menos para admirar-se com as fortificações de sua Alcazaba, conferir os panoramas da fortaleza de Gibralfaro e visitar o Museu Picasso. A cidade natal do mais famoso pintor do século 20 só tinha o pequeno apartamento do número 15 da Plaza de la Merced para mostrar aos visitantes. Foi ali que nasceu e viveu o artista nos nove primeiros anos de sua vida. O novo museu trouxe Pablo Picasso de volta para sua cidade. E recolocou Málaga no roteiro turístico. Uma parada estratégica, aliás, rumo aos picos da Sierra Nevada - os mais altos da Espanha continental, com estações de esqui a pequena distância do Mediterrâneo - que testemunharam a rendição de Granada.
A cidade, tema de música que você certamente já ouviu aos arrepios, fica aos pés do complexo de palácios e jardins da Alhambra e do Generalife. É o complemento indispensável de qualquer viagem, ainda que rápida, pela região. Justamente por causa dessas duas atrações que, na prática, são o prolongamento uma da outra (o Generalife tem os jardins e os palácios de verão contíguos à famosa fortaleza).
A Alhambra das histórias e das lendas é o monumento mais visitado da Espanha. Ainda que fartamente fotografada e registrada por pintores e desenhistas de rua, não há imagem que faça jus à suntuosidade da chamada Fortaleza Vermelha, residência oficial da dinastia násrida até sua retirada em 1492. No interior da muralha de 2 quilômetros de extensão e trinta torres de vigia, chegaram a viver, simultaneamente, 2000 pessoas. Todas elas a serviço dos sultões que se sucederam por 250 anos de fartura e apogeu cultural.

As marcas dessa era de ouro estão por toda parte nesse emaranhado de palácios comunicantes e rivalizam, em acabamento e detalhes, com as dez mais ricas construções de todo o Islã. Circulando pelas alamedas ou ouvindo o som contínuo de alguma das mil fontes da Alhambra, você entenderá por que a Andaluzia é uma espécie de enclave das Arábias no corpo da Europa. E, de novo, se não tiver cuidado, será levado a devanear. O único risco - lembre-se de novo - que corre quem dirige pela Andaluzia.

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