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Próxima Viagem > Setembro/2007 > Praia dos Carneiros

O segredo dos descolados

Embora seja lindíssima e do tamanho de Copacabana, esta praia pernambucana, a 105 quilômetros do Recife, ainda é frequëntada por poucos. Em especial, pelos chiques, famosos e talentosos

Walterson Sardenberg Sobrinho

Matéria publicada na edição 95 (Setembro/2007) de Próxima Viagem


Leo Caldas

Embora seja lindíssima e do tamanho de Copacabana, esta praia pernambucana, a 105 quilômetros do Recife, ainda é frequëntada por poucos. Em especial, pelos chiques, famosos e talentosos

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Segundo reza a história recente, o primeiro chique, talentoso e famoso a pisar estas areias foi Chico Buarque. Ele mesmo, o próprio, neto de pernambucano. Vieram outros. Sua filha, Silvia Buarque, desembarcou em companhia do marido, o ator Chico Diaz. Outros colegas de ribalta e prestígio foram se acomodando sem pressa sob o sol, animados por uma entusiasmada propaganda boca a boca. Primeiro, Marco Nanini e Camila Morgado, felizes pelo santo descanso. Depois, Matheus Nachtergaele, Dira Paes e Alessandra Negrini. Mais tarde, estenderam suas toalhas de praia Marcelo Camelo (do recém-extinto grupo Los Hermanos), Vanessa da Mata e Arnaldo Antunes. Sem esquecer o eterno Pelé. Ele já deu as caras três vezes. O lugar é sossegado mas bate um bolão.
Releia a lista de freqüentadores. Verifique. Nenhum ex-Big Brother. Nenhuma promoter de auês noturnos. Nenhum calouro da televisão em insana busca por holofotes. Nenhuma rainha da bateria sonhando com um programa infantil - ou nem tanto. Só gente que prefere a sóbria discrição à apimentada descrição das revistas de gossips. A Praia dos Carneiros, enfim, bem poderia ser chamada de a genuína ilha dos caras. Se fosse uma ilha, claro. É quase uma, façamos a ressalva.
A Praia dos Carneiros - e da plêiade dos chiques, talentosos e famosos - fica em um istmo, 105 quilômetros ao sul do Recife. Em outras palavras, embora tenha ligação com o continente, está cercada de um lado por um rio e, do outro, pelo cativante mar pernambucano, ocupando o braço de uma península, preenchida por esguios coqueirais. Essa condição geográfica rendeulhe uma beleza sem par. Entre diversos motivos porque, se em outras praias o desagüe de correntes fluviais resulta em águas barrentas e nada convidativas, não foi bem isso o que ocorreu por aqui, aleluia!

Rendam-se homenagens a São Benedito - o bronzeado padroeiro desse istmo ensolarado - e, também, ao tal rio, o Ariquindá, que desponta entre os mais limpos do nosso litoral, tornando as águas de Carneiros mais claras que as demais do Nordeste. Duvida? Pois elas se revelam ainda mais transparentes na maré baixa, quando aflora uma barreira de corais com mais de 2 quilômetros de extensão. Em meio a esses arrecifes, formam-se dezenas de piscinas, por onde o visitante caminha sem estresse vendo nadar os peixes nas mesmas condições emocionais. São budiões azuis. Sargentinhos. Castanhetas. Mariquitas. Ciquiras. Bobós. Caraúbas. É tanto peixe para ser visto de fora d'água que há quem coteje o lugar a Bora Bora, na Polinésia Francesa.
Talvez a comparação peque pelo exagero, mas, de qualquer maneira, Carneiros é presença recorrente em qualquer ranking das praias mais bonitas do país. Inclusive em eleições promovidas por PRÓXIMA VIAGEM. Tal distinção, no entanto, não descambou em deslumbramento tolo. Tampouco em agitação desenfreada.
Carneiros continua tão serena que os galos ainda tecem suas manhãs e os sagüis descem dos coqueiros para comer nas mãos dos funcionários das pousadas, assim como os peixes-boi costumam aparecer, sem temores, nas águas do Rio Ariquindá, para rotunda alegria dos ecologistas. Não há por aqui ambulantes percorrendo as areias, tentando empurrar redes a quem já está em ócio pleno. Nem ônibus de excursão ou solertes flanelinhas. Nenhum jet ski atormenta nossos ouvidos e nenhum automóvel se aproxima fazendo soar funks cariocas, pagodes paulistas ou afins em volume carnavalesco. Para mudar o ritmo do cotidiano, só a chegada de alguns catamarãs, trazendo banhistas de Porto de Galinhas. Nada que venha perturbar a harmonia.

A essa altura, o prezado leitor deve estar encafifado, perguntando-se por que, diachos, uma praia com tais atributos escapou à indiscriminada invasão que assolou sua vizinha Tamandaré e - para citar outro exemplo pernambucano - a própria Porto de Galinhas, cujo futuro, ao que tudo leva a crer, será, com o perdão do trocadilho, penoso. Pois bem, a razão principal é que Carneiros tem acesso complicado. Tal como os chiques, talentosos e famosos, aliás.
Uma ponte sobre o Rio Ariquindá resolveria esse entrave. Mas ela ficou no esqueleto, inconclusa, ligando apenas a desfaçatez do poder público à desilusão de eventuais investidores. A instalação de um serviço de balsas poderia servir de bálsamo, mas a idéia não passou desse jogo de palavras. Outra solução seria asfaltar a estreita estrada que conecta a praia à cidadezinha de Tamandaré (21000 almas), município ao qual Carneiros pertence. Só que, apesar do rosário de promessas de governos diversos e adversos, apenas 3 dos 8 quilômetros dessa vereda ganharam pavimentação. Quando chove, portanto, a estradinha continua seguindo da lama ao caos.

Há outro fator determinante, ressalte-se, que manteve Carneiros a salvo da especulação. E ele tem nome próprio. Chama-se Rosalvo Ramos da Rocha. Em 1938, um ano antes do estopim da Segunda Guerra Mundial, esse pernambucano era o próspero proprietário de uma padaria em Garanhuns, no interior do Estado. Nutria, todavia, sonhos mais altos, além de algumas economias bem enfurnadas. Alertado pelo irmão, Rosalvo ficou sabendo de uma negociação atraente: uma praia inteira à venda, numa região propensa ao plantio de coqueiros - árvore que, embora seja hoje um logotipo do Nordeste, foi trazida da Ásia pelos portugueses no século 16.
Rosalvo foi, viu e, padeiro de formação, botou as mãos na massa, quitando a propriedade - de cerca de 5,5 quilômetros quadrados - pela quantia de 180 contos de réis. Para aferir o valor de tal monta à época, cabe recordar que, três anos mais tarde, o São Paulo Futebol Clube pagaria 20 contos de réis a mais pelo craque Leônidas da Silva, então no ostracismo, devido a problemas de falsificação de documentos do alistamento militar. Enfim, se não era uma quantia exorbitante, não chegava a ser uma bagatela. Nem poderia. A Praia de Carneiros tem mais de 6 quilômetros de orla. Uma imensidão. Uma extensão equivalente à de Copacabana. A diferença é que Copacabana reúne mais de 4 000 edifícios (um deles, o Richard, com 507 apartamentos); já Carneiros tem só esparsas casas de veraneio e meia dúzia de pousadas, lembrando que essa meia dúzia não é força de expressão - mas número de fato.

O firme propósito de Rosalvo em transformar a praia numa fazenda de cocos foi mantido ao longo do século passado pelos seus nove filhos, mesmo depois da morte do empreendedor - em 1972, aos 77 anos -, e mesmo após a divisão das terras entre os herdeiros. Vista assim do alto, Carneiros ainda é um mar de coqueiros. Na virada do milênio, contudo, dois indícios foram tomando contorno cada vez mais definido: em primeiro lugar, a vertiginosa queda do preço do coco depois dos ventos poderosos da globalização (para quem não sabe, pode sair mais em conta, no momento, importar o produto do remoto Sri Lanka, na Ásia, do que comprá-lo no Nordeste); em segundo, a irresistível vocação turística da praia. Por sorte, esta última tendência vinha em boa hora amenizar os danosos efeitos da primeira.
A maior parte das terras, vale a ressalva, continua servindo ao plantio de coco, bem entendido. Aliás, um dos espetáculos de Carneiros é ver a colheita - feita a cada dois meses - e observar a arte dos "subidores", especialistas que escalam os coqueiros com habilidade circense.

O turismo, seja como for, haveria de despertar investimentos dos herdeiros de Rosalvo, se não como a salvação da lavoura, ao menos como um bem-vindo rendimento extra. Foi assim que, pouco a pouco, os membros da família se tornaram, cada um, dono da própria pousada. Por obra deles, surgiram a Pontal dos Carneiros, o Sítio da Prainha, a Arikindá, a Pousada do Gameleiro. Nenhuma gigantesca. Nenhuma ostensivamente chique. Todas acolhedoras. Todas confortáveis Todas dotadas de restaurantes ou barzinhos de praia. É bem verdade que ninguém precisa se hospedar nessas pousadas para freqüentar as alvas areias de Carneiros. Mas, como se trata de propriedades particulares, para chegar aos barzinhos e restaurantes e, enfim, instalar-se na praia, é preciso arcar com uma consumação mínima - em geral, de cerca de 30 reais. Caso contrário, será necessário chegar de barco ou partir a pé de Tamandaré, encarando um trajeto mais indicado a maratonistas.
O turismo, agora, já não está restrito às mãos da família Rocha, diga-se a bem da verdade. Como vem ocorrendo cada vez mais amiúde no Nordeste, também aqui turistas portugueses resolveram largar tudo na Europa para investir em hospedagem na antiga colômia. Assim ocorreu com o ex-representante de vendas da área da moda Carlos Beltrão, hoje dono da Pousada do Farol. Sua história é similar à de Raul Fonseca, ex-diretor do Banco Espírito Santo, em Lisboa, e atual proprietário do Resort Praia dos Carneiros - de onde, garante, só sairá "na horizontal". Cumpre informar que o hotel de Raul não fica exatamente em Carneiros, mas numa colina do outro lado do Rio Ariquindá - e já no município de Rio Formoso -, brindada com uma das mais espetaculares vistas da região. Nesse caso, a ausência da tão prometida ponte não chega a atrapalhar. Raul põe à disposição embarcações que fazem a travessia, levando até a praia, onde montou um cômodo ponto de apoio. O hóspede Pelé aprovou, entende?

Para os chiques, talentosos e famosos, o momento de Carneiros é o ideal. Na visão deles, já há estrutura suficiente para relaxar e gozar o merecido descanso com todo o conforto. Ao mesmo tempo, sobra privacidade numa rara praia nordestina em que um rosto conhecido da televisão não suscita filas de autógrafos ou atropelos. Melhor deixar claro que Carneiros não oferece badalações noturnas. Daí, talvez, o desinteresse das promoters. Mas já há mais o que fazer do que apenas refestelar-se numa praia idílica. O bar Bora Bora - também da família Rocha - serve apetitosos pratos de frutos do mar e música na altura certa para não azedar o bate-papo, se bem que suas mesas e cadeiras de plástico berrante clamem pela troca. Além disso, passeios de lancha podem ser contratados por apenas 25 reais - uma ninharia no Nordeste -, com direito a visita aos manguezais, piscinas naturais, bancos de areia e até a um, dizem, terapêutico banho de argila. É especialmente agradável ver Carneiros olhando do mar, descobrindo os rústicos telhados dos bangalôs entre os coqueiros. O destaque fica para a Capela de São Benedito, que teria sido erguida pelos escravos há mais de 200 anos. Oportuno lembrar que, também na vizinha Tamandaré, resistem as construções históricas. A começar pelo forte edificado pelos lusitanos no século 17.

Se você troca, sem titubeio, agitos noturnos pelo sossego e não vê problemas em enfrentar, vez ou outra, estradinhas de terra, o momento de vir até aqui é este. Agora! Afinal, tudo leva a crer que Carneiros mudará com o mesmo ímpeto de suas marés. Parece que desta vez a tal estrada de terra finalmente será toda asfaltada; e até aquela ponte deverá ser concluída. Tudo isso para acolher um crescimento, como seria de supor, inevitável. A construtora Moura Dubeux instalará um condomínio de 250 unidades na praia. Além disso, a holding Paes Mendonça promete uma série de resorts para o outro lado do Rio Ariquindá, na Praia de Guadalupe. Também haverá na região investimentos em hotéis de vulto do grupo espanhol Qualta. Para enfrentar a concorrência, a Pousada Pontal da Praia ganhará outros 21 apartamentos, além de uma filial do restaurante Beijupirá, de Porto de Galinhas. Em suma: Carneiros corre o risco de perder parte de sua mansidão caprina. Mas, com certeza, continuará freqüentando os rankings das mais belas praias do país.

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