Filosofia hindu, jeitinho sueco
Na Pequena Índia, uma pitoresca pousada implantada pela descendente de suecos Marie-Louise Göranssona, a idéia foi trazer um pouquinho do país do Oriente para as imediações do Parque Nacional de Itatiaia
Paulo D'Amaro e Bárbara Raffaeli
Matéria publicada na edição 94 (Agosto/2007) de Próxima Viagem
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Penedo, RJ
Como juntar numa mesma frase a Índia, a Suécia, a Finlândia e o Rio de Janeiro? Sim, caro leitor, esses lugares são tão diferentes entre si que parece impossível uni-los de alguma forma que faça sentido. Mas existe um ambiente em que isso acontece, de modo harmonioso e surpreendente. É a Pequena Índia, uma pitoresca pousada implantada pela descendente de suecos Marie- Louise Göransson, na simpática cidade de Penedo (RJ), o reduto dos imigrantes finlandeses no Brasil.
Como diz o nome, a idéia foi trazer um pouquinho do país do Oriente para as imediações do Parque Nacional de Itatiaia, onde fica o município de Penedo. Deu mais que certo. Com apenas dois anos de funcionamento, a Pequena Índia é um dos pontos mais comentados dessa região, que fica exatamente na divisa dos estados de São Paulo e do Rio de Janeiro.
Começa pela localização, a 5 quilômetros do centro da cidade. "Longe da agitação e perto das cachoeiras e trilhas", ressalta Marie-Louise. Se Penedo é bela pela arquitetura e pelas tradições nórdicas, os arredores são ainda mais inspiradores, com montanhas de cumes agudos, desfiladeiros e porções preservadas de Mata Atlântica. Não é raro ver tucanos, pica-paus e outras aves selvagens - aqui é o território delas.
Junte a esse bucolismo o caráter contemplativo da cultura indiana e você terá um dos recantos mais afáveis para quem quer relaxar e esquecer as agruras da cidade grande. "Cada vez mais executivos e, principalmente, mulheres de negócios nos procuram nos fins de semana", revela Marie-Louise. Pudera: a Pequena Índia fica a pouco mais de duas horas de carro das urbes carioca e paulistana. Na medida para uma viagem rápida.
Quem aqui chega, dá de cara com construções em estilo europeu, mas inteiramente decoradas com motivos indianos. A mistura curiosa é brindada com sininhos, que se espalham por toda a pousada e tocam com o vento da serra, tais quais um mantra dia e noite. Os funcionários vestem-se à moda oriental e muitos deles adotaram convictamente nomes hindus. É o caso do especialista em medicina ayurvédica Nava Yauvana. Ele não revela seu nome ocidental nem muito do seu passado, fato que deixa a experiência ainda mais mística.
Nava prefere papear largamente sobre tudo que aprendeu em suas seis viagens à Índia, num discurso divertidamente infindável, que pode partir de um comentário meteorológico para chegar, em poucos minutos, a uma confabulação sobre o karma ou a influência dos astros em nossa vida. Tudo embasado nos Vedas, os textos sagrados milenares que regem a filosofia hindu.
Enquanto explica, o misterioso terapeuta administra a abhyanga - massagem feita com bastante óleo, em que se drenam as toxinas acumuladas nos gânglios ao longo do corpo. E, depois, a swedana - sauna típica da Índia.
Por fim, vem a shirodhara, a terapia mais interessante do lugar. A rigor, essa última resume-se a um fluxo de óleo morno delicadamente despejado sobre a testa do cliente durante quarenta minutos. Para os mais céticos, a shirodhara é, no mínimo, muito relaxante e prazerosa. E para quem mergulha de cabeça (com o perdão do trocadilho) no misticismo hindu, é uma forma de ampliar a consciência e aumentar o sexto sentido.
Ninguém sai dessas terapias da mesma forma que entrou. A sensação de bem-estar é unânime. Assim como é consenso a surpresa com a culinária vegetariana do lugar. "Não somos radicais, queremos que o hóspede se sinta bem", diz Marie-Louise, uma filha de suecos, que estudou filosofia nos Estados Unidos, se apaixonou pela Índia e nunca perdeu o jeitinho brasileiro. Por isso, até feijoada tem no Pequena Índia. A carne nela contida é vegetal, diga-se, mas preparada com temperos e capricho que não deixam muito a dever aos melhores botequins cariocas. E por falar em botequim, se o hóspede não dispensar uma cervejinha, pode consegui-la, sim, inclusive para levar ao frigobar - os quartos têm a infalível geladeirinha, assim como ar-condicionado e televisão.
É claro, porém, que a inspiração oriental predomina nas refeições, muitas vezes acompanhadas de deliciosas versões do molho chutney e também de gengibre, muito gengibre. Esse elemento insubstituível da gastronomia indiana está até nas bebidas, como o "caipigibre". Trata-se de uma caipirinha não alcoólica, feita com a herbácea - ultrarefrescante e saborosa. "E, o que é melhor, sem ressaca no dia seguinte", brinca o gerente e terapeuta Miguel Ângelo Guerreiro - ou Mathura Das, seu nome indiano.
A Pequena Índia, contudo, não se resume a sossego, massagens e comida saudável. Há aulas de ioga, consultas ayurvédicas e até um pequeno templo para quem embarcar numa viagem mais esotérica. Sem contar os passeios pela Mata Atlântica rumo a cachoeiras e mirantes. "O encanto das viagens não está apenas nas mudanças de cenário, mas nas transformações que ocorrem no espírito", diz Marie-Louise. Um fim de semana na Pequena Índia é prova indiscutível disso.
VÁ SE...
... você quer desfrutar a ioga e as terapias tipicamente indianas, mas sem a obrigação de enveredar por meditação ou religiosidade.
... estar em contato com a natureza lhe faz bem.
... você quer uma dieta saudável, mas não radical.
NÃO VÁ SE...
... você está ávido por uma experiência mística. O Pequena Índia não é um reduto da crença hinduísta.
... você não suporta um insetozinho que seja. A pousada é limpa, mas está em plena Mata Atlântica.
... você tem crianças. Não há lazer para elas.
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Pequena Índia, Rua Romeu de Vasconcelos, 25, Penedo (a 5 km do Centro), tel. (24) 3351-1702. Diária de R$ 150 a R$ 250, com almoço. A massagem abhyanga com sauna custa R$ 150. Há outros tratamentos e acupuntura; www.pequenaindia.com












