Você está preparado para a Índia?
Se você está pensando em ir à terra dos marajás, é bom saber: depois disso, nunca mais verá o mundo da mesma forma
Xavier Bartaburu
Matéria publicada na edição 94 (Agosto/2007) de Próxima Viagem
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Fato 1: a Índia é um caos. Se você procura paz, a única que encontrará é a paz interior. No caso, o interior de si mesmo ou o dos hotéis. O lado de fora é o que o economista John Kenneth Galbraith, embaixador americano nos anos 1960, chamou de "anarquia funcional". Ou seja, um lugar absurdamente cheio de gente e de vacas, ruidoso, desordenado e cujo trânsito não parece atender a nenhuma lógica conhecida. Mas que, milagrosamente, funciona. A ordem que rege tudo isso é um mistério que só os indianos ou os estudiosos da Teoria do Caos podem entender.
Afinal, como se organiza uma nação de 1,1 bilhão de habitantes (agregou o equivalente à metade da população brasileira só na última década) e que fala dezesseis idiomas oficiais? A China teve a mão de Mao e a do Partido Comunista. Mas a Índia, que felizmente não sofreu a praga dos governos totalitários, precisou encontrar os próprios mecanismos para chegar ao século 21. O que não é pouco, se lembrarmos que a civilização indiana existe há mais de 4000 anos.
Um desses mecanismos são as filas, evidente legado de dois séculos de domínio inglês, ao lado do chá, da língua e do críquete (paixão nacional de lotar estádios). Há filas - indianas, é claro - para tomar ônibus, para sacar dinheiro, para entrar nos aeroportos, para visitar palácios. Enormes, todas. E você certamente não escapará delas, nem dos incansáveis vendedores de bugigangas que se aproveitam da situação. As do célebre mausoléu Taj Mahal, em Agra, são assustadoras. Se puder, evite ir à tarde, a não ser que você tenha uma funesta atração por filas quilométricas.
Quando não estão enfileirados, os indianos parecem estar por toda parte. Tente andar a pé pelas ruas e você se verá invariavelmente engolido por uma voraginosa multidão. E o mais estranho é que ninguém parece se incomodar. Como pode?
Asit Kumar, morador de Nova Délhi que trabalha na área de turismo, explica: "O hinduísmo nos ensina a olhar para nós mesmos". Os exercícios, ele conta, são praticados todas as manhãs, na hora da reza matinal (a puja), uma pausa de cinco minutos consigo mesmo. Disso, Asit extrai uma valiosa lição: "O silêncio é o melhor remédio".
Acredite: o mais incrível é que, depois de uma semana inteira na Índia, a bagunça das ruas começa a se tornar um bocado mais tolerável. Isso, veja bem, não significa que você esteja alcançando a paz interior, mas é bem provável que você esteja se dando conta de que não há nada a fazer. A Índia é tão arrebatadora que não há saída senão adaptar-se a ela com estóica aceitação. E a resignação, já sabemos, é santo remédio contra o estresse.
As leis do destino fazem parte da vida dos indianos há milênios, ao menos desde que o sistema de castas foi inventado para dividir a sociedade em quatro grupos: os brâmanes (que representam os sacerdotes), os xátrias (a casta dos guerreiros), os vaixás (os comerciantes) e os sudras (os intocáveis, relegados aos trabalhos mais baixos). A constituição indiana hoje proíbe a discriminação por castas, mas as diferenças ainda são visíveis, especialmente no interior do país, onde vivem cerca de 80% da população. Em certos casos, essas diferenças são até exaltadas.
Basta abrir o Sunday Times, um dos jornais mais lidos no país: são oito páginas diárias de anúncios matrimoniais, divididos por casta e religião. Quem os publica em geral são os pais, e não os noivos. Aliás, os pombinhos nem participam das negociações; seus pais é que se ocupam de encontrar alguém que combine em matéria de casta, religião, língua, classe econômica, horóscopo e até hábitos alimentares. No primeiro encontro, é claro, a família toda vai junto. Soa-lhe terrível? Pois saiba que o índice de divórcios na Índia é um dos mais baixos do planeta.
Fato 2: indianos são os melhores motoristas do mundo. Caso você vá à Índia, nem ouse tentar dirigir um carro. Isto é coisa para profissionais - a não ser que você seja um especialista em desviar de vacas, dromedários, elefantes, cabras, porcos, cães, bicicletas, caminhões, motos e riquixás motorizados. E, é claro, de gente. De muita, muita gente.
Semáforos e placas de trânsito até existem, mas eles não fazem a menor diferença por aqui. A forma mais eficaz de comunicação entre veículos, pessoas e animais se faz por meio de buzina. E o que é mais impressionante: dá certo. Desde que, é claro, os cinco sentidos estejam perfeitamente aguçados. No geral, todos se entendem, ninguém se machuca. É a tal da "anarquia funcional".
Você gosta de fortes emoções? Pois suba num phat-phat, um daqueles riquixás motorizados similares aos audazes tuk-tuks da Tailândia, e prepare-se para ver-se metido em frenéticos ziguezagues, mergulhado numa saraivada de buzinas e tomado por uma estranha sensação de que, finalmente, você vai acabar usando aquele seu seguro de viagem. Tenha a certeza, porém, de que esta é a maneira mais prática, rápida e barata de se ir de um lugar a outro numa cidade indiana. E garantia certa de aventura.
Caso você ainda insista em alugar um carro, saiba que a maioria das locadoras inclui o motorista. Confie nele: além de ser um virtuose da buzina e conhecer a fundo as indecifráveis leis de trânsito indianas, é também um perito em dirigir nas estradas do interior, em geral estreitas, esburacadas e, não raro, repletas de caminhões, pessoas e animais. Não o culpe se ele levar quatro horas para percorrer o caminho entre Agra e Nova Délhi, separadas por apenas 200 quilômetros. Lembre-se: na Índia, tudo segue outro ritmo. Não seria um bom momento de prestar mais atenção à paisagem?
Fato 3: vacas são mesmo sagradas. Se você é um entusiasta da picanha, esqueça. Só restaurantes e hotéis de luxo servem carne bovina. Ou, então, no Estado de Kerala, extremo sul da Índia, onde há um grande contingente de cristãos. Como 80% da população indiana é hindu, não conte com a sorte. As únicas carnes garantidas no cardápio serão frango, cabra e carneiro. E peixe e frutos do mar, nas áreas costeiras. Porco, nem pensar: nem muçulmanos nem hindus de castas superiores o comem. E se você vê esperança no McDonald's, saiba que o Big Mac aqui atende pelo nome de Chicken Maharaja Mac.
Mas não se desespere. Antes de entrar em síndrome de abstinência, você vai descobrir que viver sem carne bovina (ao menos por um tempo) não é tão terrível quanto parece. As receitas, os temperos e os sabores da culinária indiana são tão diversos que farão você se esquecer (ao menos por um tempo) do amado filé mignon.
Já os vegetarianos conhecerão o paraíso. Por questões religiosas, certos grupos na Índia baniram a carne de sua dieta; é o caso dos sikhs e dos jainistas - crenças derivadas do hinduísmo - e também dos brâmanes. Por causa deles, todos os cardápios estão divididos em veg e non-veg. E o veg concentra toda uma antiqüíssima tradição gastronômica que surpreenderá até os mais experientes adeptos dos legumes e das verduras.
Cabe aqui uma explicação: a vaca é a montaria de Shiva - um dos deuses da Santíssima Trindade hindu, ao lado de Brahma e Vishnu. Portanto, animal dos mais sagrados no hinduísmo. Para uma enorme quantidade de indianos, ainda tem utilidade prática: além de fornecer leite, suas fezes são usadas para acender a fogueira e rebocar as casas, como medida para espantar insetos (por mais incrível que isso possa parecer). "A vaca é como a mãe para nós", resume o guia turístico Jitendra.
O problema é que a "mãe", uma vez que deixa de dar leite, é sumariamente abandonada à própria sorte. Torna-se, digamos, uma vaca vira-lata. Há um costume muito arraigado na Índia, que é o de largar na rua tudo o que se torna imprestável. Quem já foi, sabe que o excesso de sujeira costuma chocar visitantes de sensibilidade mais aflorada. Bem, o lixo inclui as vacas. E elas adoram ficar no meio do trânsito, pois a fumaça dos carros, dizem estudiosos, é ótima para espantar as moscas.
Fato 4: indianos gostam de pimenta mais do que você imagina. Quando for encarar um prato da culinária local, não se esqueça de perguntar o quanto de pimenta ele leva - a menos que você seja do tipo aventureiro ou da espécie que não se incomoda em sentir as papilas gustativas ardendo em chamas. A maioria dos restaurantes turísticos, num ato de piedade, optou por aliviar a dose de condimentos em alguns pratos, poupando os visitantes de surpresas. Ainda assim, não espere uma comida "ligeira". É melhor preparar o estômago: a Índia não dá trégua nem mesmo dentro de você.
Como se sabe, esta é a pátria das especiarias. Por mais que você freqüente restaurantes indianos em sua cidade, não há nada que se compare à abundância de temperos que encontrará na Índia. Só de pimenta-do-reino eles usam três tipos diferentes: preta, verde e branca. Fora isso, ainda há o cardamomo, a canela, o cravo-da-índia, a noz-moscada, o gengibre, a cúrcuma, a mostarda, o coentro, enfim, uma variedade infinita de condimentos cujas combinações deixarão seu paladar extasiado. Desde que, é claro, você não tenha nada contra comida bem temperada.
Bons lugares para sentir o poder desses voluptuosos temperos são os mercados. O de Khari Baoli, na velha Délhi, é o maior mercado de especiarias da Ásia, um labirinto de cores e aromas para perder-se e nunca mais se achar. Outro é o Crawford Market, em Bombaim (cidade que os indianos preferem chamar de Mumbai). Não se engane com o prédio de arquitetura vitoriana: o que se esconde lá dentro é pura Índia.
Fato 5: você se apaixonará pela Índia. O.k., tem gente que vem até aqui e volta sem levar saudade. Mas são poucos. É que a Índia não tem aquela beleza clichê, arrumadinha, publicitária, como a Suíça ou o Caribe. Ela vai exigir de você uma nova maneira de ver as coisas, de enxergar a beleza no meio da bagunça. Sim, a Índia é um caos, mas um caos deliciosamente exuberante. Quem seria capaz de resistir à visão do Taj Mahal?
Tirando o Rio de Janeiro durante o Carnaval, dificilmente você encontrará um lugar com tantas cores diferentes por metro quadrado. Ainda mais se pintar um grupo de mulheres indianas. Elas realmente parecem aproveitar todo o espectro de cores disponível, sem o mínimo pudor de sair às ruas vestidas de amarelo-canário ou de rosa-choque. Sua câmera vai adorar. Mas cuidado: muitas delas sabem muito bem o quanto são fotogênicas, e não tenha dúvida de que cobrarão algum trocado por isso.
As moças da região do Rajastão são particularmente coloridas, talvez para compensar a secura da paisagem mais agreste da Índia. Curioso é que os palácios construídos pelos marajás do Rajastão também são os mais suntuosos do país, o que faz deste um estado especialmente encantador. E, em certa medida, a quintessência de uma Índia romântica que há muito tempo povoa nossos sonhos.
Você pode viver um pouco desse sonho se tiver dinheiro para hospedar-se num dos muitos palácios transformados em hotéis de luxo. Eles estão espalhados por todo o país e costumam ser vistos como um oásis de paz no meio do caos, um lugar onde a sujeira e as buzinas não entram e onde turistas americanos podem comer hambúrgueres (de carne de vaca) à vontade. Para quem gosta de relaxar, é uma ótima pedida. Outra é ir meditar aos pés do Himalaia, em Rishikesh, capital mundial da ioga. Mas quem quiser conhecer a tal da "expressão geográfica" de Churchill terá que se expôr aos ataques das buzinas, das multidões, das pimentas, dos vendedores. Terá que fazer o que faz 1,1 bilhão de pessoas: deixar-se engolir por um furacão de 4000 anos e permitir que os sentidos e os conceitos sejam completamente transformados. Mas não tenha medo: a Índia tem tudo para ser a viagem de sua vida.
LIÇÕES PRELIMINARES DE HINDUÍSMO
Entre os milhares de deuses hindus, três são os principais. Brahma é o criador do universo, mas curiosamente o menos importante; para o hinduísmo, seu trabalho já está feito. Shiva é o destruidor, no bom sentido: é o que permite a renovação do mundo. Um de seus filhos, Ganesh (representado com uma cabeça de elefante), é a divindade mais popular da Índia, associado à boa sorte. Entre a criação e a destruição, cabe a Vishnu (ao lado) a manutenção da ordem no universo. Ele vem ao mundo na forma de avatares, ou encarnações. Até agora já foram nove, três bem conhecidas: Rama (herói do Ramayana), Krishna e Buda (também aceito no hinduísmo).
A ÍNDIA DE TODOS OS TEMPOS
2500 a.C.
Surgem as primeiras cidades no Vale do Indo, onde floresce a primeira grande civilização em território indiano.
1500 a.C.
Tribos arianas conquistam a Índia. Introduzem o sistema de castas e escrevem os Vedas, textos sagrados do hinduísmo, e poemas épicos como o Ramayana e o Mahabharata.
321 a.C.
A dinastia dos Máurias funda o primeiro grande império na Índia. No século 3 a.C., o imperador Asoka torna-se o maior propagador do budismo na Ásia.
320 d.C.
O Império Gupta surge no norte e logo se torna um dos mais poderosos do Mundo Antigo. Grandes avanços no campo da matemática, da ciência, da arte e da filosofia.
1498
Vasco da Gama chega à Costa de Malabar, no sul, e abre uma nova rota para o comércio de especiarias.
1526
O imperador persa Babur invade a Índia e inaugura dois séculos de domínio muçulmano, concentrado nas mãos da Dinastia Mughal.
1648
Termina em Agra a construção do Taj Mahal, mausoléu encomendado pelo imperador Shah Jahan.
1857
Uma enorme rebelião popular leva os ingleses a sedimentar seu poder sobre a Índia. O território indiano passa a pertencer à Coroa Britânica.
1947
Os indianos conquistam a independência, mas o território é dividido em dois países: Índia e Paquistão. Começa a guerra pela região da Caxemira, além dos conflitos entre hindus e muçulmanos, que se estendem até hoje.
RETRATO DA ÍNDIA
Área: 3.287.590 km2
População: 1,1 bilhão
Capital: Nova Délhi
Línguas: inglês hindi e outros catorze idiomas oficiais
Religião: hinduísmo (80% da população), islamismo (13%), cristianismo (2%), sikhismo (2%) e outras
Moeda: rúpia indiana
Sistema de governo: república parlamentarista
O TRUQUE DOS ENCANTADORES
Sim, os encantadores de serpente existem. Mas tudo não passa de um truque: a naja não sai do cesto hiptonizada pelo som da flauta (até porque ela não tem ouvidos), e sim preparada para defender-se do que ela imagina ser uma arma. É por isso que sempre acompanha o movimento do flautista. Najas raramente atacam, mas é costume tirar-lhes as glândulas venenosas, só por segurança. Calcula-se que haja mais de 1 milhão de encantadores de serpente na Índia.
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