O roteiro do colarinho branco
No interior de Santa Catarina, surge um novo passeio por cervejarias artesanais. São nove delas em seis cidades com jeito de Alemanha
Bárbara Raffaeli
Matéria publicada na edição 93 (Julho/2007) de Próxima Viagem
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O museu é um bom aperitivo para o que vem em seguida: a visita às fábricas que estão em pleno funcionamento hoje em dia. São nove ao todo, espalhadas pelo vale. Você pode ir por conta própria ou aproveitar os pacotes que incluem as principais.
Antes de tudo, é preciso lembrar que não estamos falando de meros produtores de bebida. A tradição alemã impera no Vale do Itajaí, por meio do respeito à Lei de Pureza. Trata-se de uma norma germânica promulgada em 1516 pelo duque Guilherme IV, na região da Bavária. A regra é clara: quatro - e apenas esses quatro - ingredientes podem ser usados para se fazer uma boa cerveja. São eles o malte derivado de cevada, o lúpulo, o fermento e a água cristalina. Nada de cereais (milho e arroz, por exemplo) ou estabilizantes e antioxidantes, elementos usados sem pudores pelos grandes fabricantes. Por isso, as cervejas catarinenses são especiais. A tradição remonta a meados do século 19, quando os primeiros alemães chegaram e, claro, abriram as primeiras fábricas artesanais. A pioneira surgiu em 1856 e em 1868 já eram dez fabriquetas. Ironicamente, elas acabaram absorvidas por empresas maiores e, durante quase um século, as artesanais desapareceram das prateleiras e balcões de bar, ainda que o conhecimento continuasse passando de pai para filho.
Por isso, mesmo empresas novas como a Eisenbahn, inaugurada em Blumenau em 2002, transbordam tradição. É a maior e mais conhecida entre as micro. E também a única que exporta seu produto para outros Estados brasileiros. As garrafinhas já podem ser encontradas em alguns bares e supermercados de São Paulo, por exemplo.
O tour pela Eisenbahn dura meia hora e termina no bar da própria cervejaria, onde há petiscos - prove o bolinho de mandioquinha recheado com calabresa! - e música ao vivo, com os conjuntos mais famosos da Oktoberfest.
Na visita, pode-se testemunhar o intricado processo de produção, desde a moagem e o cozimento do malte até o engarrafamento, além de saborear um copo de chope tirado diretamente da fonte, fresquinho, fresquinho. Quem recebe os alegres visitantes é o alemão Gerhard Beutling. Formado em uma das mais conceituadas escolas de mestre cervejeiros do mundo, a Weihenstephan, na Alemanha, ele trabalhou 25 anos na Brahma, antes de participar da concepção da Eisenbahn. Enquanto Beutling comanda a produção, o brasileiro Juliano Mendes toca o negócio. Foi ele o idealizador da Eisenbahn, ao lado do pai e do irmão. "Morei em Boston, nos Estados Unidos, e vi centenas de cervejarias artesanais fabricar uma bebida de qualidade e atrair cada vez mais consumidores", conta.
Hoje, a fábrica produz onze tipos da bebida, entre elas o fortíssimo Bierlikör, ou licor de cerveja. O primeiro desse tipo feito no Brasil é derivado do chope Dunkel, uma variedade escura feita com cinco tipos de malte torrado. Além disso, há a levíssima e saborosa cerveja Lust, produzida em parceria com a vinícola San Michele. É a única no Brasil feita pelo processo champenoise, o mesmo empregado na fabricação de champanhe. Uma raridade que, além daqui, só existe na Bélgica. Nos supermercados paulistanos, uma garrafa não sai por menos de 60 reais.
Mas a Eisenbahn não é a única. Em Gaspar, a 10 quilômetros do centro de Blumenau, a Das Bier também agrada os visitantes com um chope do tipo Braune Ale, muito semelhante ao original inglês - sim, nem só de Alemanha vive o vale. É um lugar para toda a família: a cervejaria ocupa parte do pesque-pague da família Schmitt.
Nos últimos anos, mais de 1,3 milhão de reais foi gasto para transformar o recanto de pesca num centro de diversão. Existe agora um espaçoso bar, com vista para os lagos. Não há dúvida: a Das Bier já merece alguns golinhos de sua atenção. Até porque, na saída, você ganha um certificado atestando o consumo de todas as canecas de chope que solicitou.
Se, no entanto, você acha que cerveja combina mais com uma boa noitada, o lugar é a ZeHn Bier, em Brusque, a 40 quilômetros de Blumenau. O slogan da casa é "Chopp com espírito de alegria", avisa o animado proprietário, José Carlos Zen.
Quem garante a excelência dos 60 000 litros gerados por mês é o mestre Curt Zastrow. "Me formei cervejeiro na Alemanha, em 1972, mas trabalho nisso desde 1961", revela. Ele se reveza na produção de três tipos: a básica Pilsen, a encorpada Bock e a densa e escura Staut & Porter.
Como não são pasteurizadas - recurso que prejudicaria o sabor -, as bebidas precisam ser consumidas em poucos dias, razão pela qual você nunca vai achá-las à venda além de um raio de 120 quilômetros daqui. Essa é a proposta da ZeHn: ser artesanal e local. Por isso, a própria fábrica virou balada. Loiras, tanto as geladas como as belas locais, dão o tom da festa, com a música ao vivo rolando noite adentro. Se você achar que bebeu demais porque, a cada música, vê um cantor ou guitarrista diferente, acalme-se. É que, na ZeHn Bier, não há uma banda definida. Quem quiser sobe ao palco e faz o próprio som, no estilo jam session. O pagamento, claro, é em cerveja.
Animação é o que não falta também na Shornstein, instalada em Pomerode, a cidade mais germânica do Brasil - 80% dos 22.000 habitantes são descendentes de alemães e a maioria fala a língua. A proximidade com Blumenau (apenas 33 quilômetros) movimenta o bar da fábrica nas noites de quarta a domingo. Os freqüentadores mais assíduos têm até cartão de ponto, numa demonstração de humor típica dos bons bebedores de cerveja.
Não bastasse issso, a Schornstein é especial por outras razões. A decoração e os vídeos da Oktoberfest de Munique, exibidos sem parar, dão a impressão de que você está na Bavária. Fato reforçado pelo delicioso cardápio de pratos típicos, preparados por um chef importado da terra de Michael Schumacher. Uma experiência única.
Não ficou satisfeito? Tudo bem, você ainda pode visitar outras cervejarias da região, como a Bierland, em Blumenau (que, acredite, vende cervejas em garrafas PET), a Borck, em Timbó (única fabricante de malzbier artesanal do país), a Heimat, em Indaial (que se gaba de empregar uma receita concebida 700 anos atrás) e a Kannenbier, também em Indaial (com sua stout com um gostinho de café, por mais estranho que pareça).
Não pense que depois de tudo isso você estará mal, com o fígado pedindo água e a cabeça querendo se enterrar num quarto escuro. Esqueça a palavra ressaca. No Vale das Cervejarias, essa história é puro mito. Tem tudo a ver com a tal da Lei da Pureza - lembra-se dela? Claro que sim. Perder a memória é para quem não sabe beber. E aqui, todo mundo sabe!
NOMES DIVERSOS, SABORES TAMBÉM
As cervejas ganham caracterísiticas e denominações diferentes conforme o tipo de malte usado. Confira:
PILSEN - Essa é a variedade que mais agrada ao paladar dos brasileiros e, por isso, também a mais consumida no país. É leve, de coloração dourada e teor alcoólico de 4,8%.
PALE ALE - Se você comparar um copo de Pale Ale com um de Pilsen, a impressão será de que a primeira é mais forte. De fato, a Pale Ale é mais encorpada e de coloração acobreada. O amargor também é mais acentuado. Mas o teor alcoólico é igual, em torno de 4,8%.
WEIZENBIER - Trata-se da famosa cerveja de trigo, com alta fermentação. Isso quer dizer que usa, além do malte de cevada, o malte de trigo. A bebida não é filtrada, conservando o fermento. Por isso, tem coloração mais turva.
BOCK - Entre os vários tipos de malte, são utilizadas algumas variedades torradas, o que justifica o sabor amargo e a cor mais escura e avermelhada. Seu teor alcoólico é maior que o da média, ficando em torno de 5,8%.
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