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A eterna elegância dos Lagos Alpinos

Entre o norte da Itália e o sul da Suíça, as águas mais doces e exclusivas da Europa guardam a privacidade de ricos e famosos. E merecem sua visita

Texto e fotos de Beppe Ceccato

Matéria publicada na edição 93 (Julho/2007) de Próxima Viagem


Stefano Renier/Grand Tour/Corbis

No Lago de Como fica Bellagio, uma das cidades mais agradáveis do norte da Itália, conhecida como a "Portofino dos Lagos"

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Ovos estragados choviam na cabeça dos paparazzi e em suas preciosas câmeras digitais. Um bombardeio impiedoso, com pontaria infalível. O repugnante sistema de defesa vinha de uma casa linda e antiga, às margens do Lago de Como, no norte da Itália. A mansão, conhecida como Villa Oleandra, fica na aldeia de pescadores de Laglio e pertence a ninguém menos que o galã hollywoodiano George Clooney. Não se sabe se foi o próprio ator quem alvejou os enxeridos fotógrafos, mas as crônicas contam que, depois do tiroteio, ele saiu sorrindo e, como quem não queria nada, perguntou para os paparazzi o que estava acontecendo...
Essa é apenas uma das pitorescas histórias que trouxeram à evidência os lagos alpinos desde 2002, quando Clooney, encantado com suas maravilhas, decidiu instalar sua casa de férias por ali. O espelho-d'água escolhido por ele virou um playground de Hollywood: Brad Pitt, Angelina Jolie, Michael Douglas, Catherine Zeta- Jones, Julia Roberts, Richard Gere e, recentemente, Robert De Niro, com esposa e filho - todos eles têm passado dias de lazer na propriedade de George ou nas adjacentes. Um concentrado de bilionários que, juntos, superam o PIB da Itália.

Não é à toa que o Lago de Como - cujo nome oficial nos mapas é Lario - tem sido chamado pelos italianos de "Lariowood". Faz sentido os endinheirados - sejam italianos ou não - escolherem esse recanto europeu. Os lagos de Como, Maggiore e Lugano são os chamarizes do norte da Itália e do sul da Suíça. Cenográficos, no meio das montanhas, agradáveis, cheios de prainhas, abrigam fortalezas, paços, igrejas e edificações primorosas. Tanta beleza encantou ao longo dos séculos artistas, escritores, músicos e políticos de todo o planeta. Passar férias ou pelo menos visitar os lagos do norte da Itália ficou in.
Em cidadezinhas como Stresa, Bellagio e Cernobbio, essa invasão de celebridades fez se consumar amores proibidos e prodígios da arte e do pensamento, além de inspirar mentes brilhantes. Resultado da atmosfera inigualável deste lugar.
Mas vamos com ordem. E a ordem, como a natureza quer, é milenar, a exemplo dos lagos. Eles nasceram na chamada faixa pré-alpina, aos pés das montanhas, durante os períodos glaciais. São vários e todos, curiosamente, com mais de um nome: o preservadíssimo Maggiore (chamado também de Verbano), o chiquérrimo Lugano (ou Ceresio) e o badalado Como (ou Lario), sim. Sem contar os lagos menores, como o de Endine, o Iseo e o Idro. Cada um com um tipo de encanto.

O Lago de Como é sem dúvida o mais célebre. Está certo, ele tem o Clooney, que contribuiu recentemente para essa fama. Os preços estouraram. Vejamos: uma casa de 80 metros quadrados em Laglio custava o equivalente a 25 000 euros dez anos atrás. Hoje em dia, vale pelo menos 400 000. Na era Clooney, até uma nova atividade surgiu: o vipwatching. São cruzeiros lotados de gente com binóculo procurando o Brad, o Matt, o Robert ou a Julia, como se fossem animais raríssimos.
Mas a importância do Lago de Como vai bem além das celebridades ianques. Remonta a 2 000 anos de história, quando funcionava como uma larga estrada aquática por onde passaram exércitos, comerciantes e romeiros. A herança cultural é imensa. A cidade mais importante, Como (que deu nome ao lago), passa hoje por uma "Nova Renascença", com dezenas de eventos cul- turais todos os anos. E não pense que se trata de coisa pouca. Neste mês de julho, por exemplo, o Museu Villa Olmo abriga uma exposição de Cézanne, Chagall, Degas, Gauguin, Kandinsky, Mondrian, Picasso, Monet e Renoir. Faltou alguém?

A imponência lacustre não se restringe à cultura que fervilha em suas margens. A natureza é tão arrebatadora quanto. Basta dizer que este é o mais abissal lago de toda a Europa. Com seus 400 metros de profundidade, atrai aventureiros de todo tipo. Mas não pense que é para apenas nadar ou mergulhar. Quem vive por aqui também são os bikers, ciclistas fanáticos pelas perigosas curvas da estrada costeira, e os motociclistas, inspirados pela Guz- zi, a fábrica de motos fundada em 1921 à beira da água. Diz-se que aqui está o maior número de motoclubes do mundo. Todos os anos milhares de easy-riders vindos da Europa, dos Estados Unidos, da Austrália e do Japão reúnem- se na pequena Mandello, onde as possantes italianas são montadas com precisão suíça. Um happening que dura uma semana, exótico, alegre e barulhento. E sabe quem, por sinal, é habituê? Sim, George Clooney, que tem uma Guzzi modelo California...
A cidade mais bonita do Lago de Como, contudo, está do outro lado, na margem leste. É Bellagio, conhecida como a "Portofino do Lago". Ela exibe casas delicadamente pintadas em cores pastel, ruazinhas estreitas e cheias de lojinhas e mansões erguidas no final do sécu- lo 18 e no século 19. A mais famosa é Villa Melzi, construída em 1808 para residência de veraneio do vice-presidente da curtíssima primeira República Italiana, que vigorou por três anos, quando Napoleão mandava também além dos Alpes.

Em posição dominante, fica outro endereço histórico: a Villa Serbelloni, uma mansão edificada há mais de 500 anos. Na verdade, o terreno abriga moradias desde o Império Romano e, na Idade Média, até mesmo um castelo levantou seus muros onde fica agora o casarão.
Hoje, a Villa Serbelloni pertence à americaníssima Fundação Rockefeller, que organiza eventos culturais. Desponta aqui um acervo de obras de arte de valor inestimável e um jardim - se é que se pode chamá-lo assim - com mais de 18 quilômetros de aprazíveis trilhas entre árvores seculares e flores. Até bananeiras crescem no terreno, que era parada obrigatória de Winston Churchill e John Kennedy quando visitavam o lago.
Eles e outros VIPs se hospedavam no único cinco-estrelas da cidade, o Hotel Villa Serbelloni, cuja reputação gastronômica se conserva atualmente nas mãos habilidosas do chef de cozinha Ettore Bocchi, premiado com uma estrela pelo afamado Guia Michelin. Seu restaurante, o Mistral, nas dependênicas do hotel, é imperdível.
Tão ou mais imperdível é tomar uma balsa para Tremezzo ou Varenna. Não leva mais de dez minutos para que o panorama mude totalmente, como se o Lago de Como tivesse uma outra face, à semelhança das imaginárias pinturas de Giuseppe Arcimboldo, que nasceu e viveu na não muito distante Milão. A primeira dessas novas caras é a mansão de Villa Carlotta, exemplo singular do barroco lombardo. Além de esculturas de Antonio Canova, o casarão é sede do jardim botânico de Tremezzo, oferecendo 150 diferentes tipos de azáleia - umas das florescências mais espetaculares da Itália.

Nesta região, entre as cidades de Griante e Colonno, os amantes do trekking podem se deliciar em um novíssimo percurso, chamado de "A Greenway do Lago". São 10 quilometros de vistas panorâmicas fantásticas, garantidas pela tecnologia moderna. Sim, os andarilhos do terceiro milênio podem contar com uma rede wi-fi e mapas interativos para construir e personalizar o percurso em seu palmtop (www.unionetramezzina.it). Uma lembrança de que, mesmo repletas de tradição e arquitetura preservada, estas paragens fazem parte da região mais rica e avançada da Itália. Afinal, Clooney não deixaria a Califórnia do Vale do Silício sem uma contrapartida à altura.
Se você chegou até aqui, faltam poucos quilômetros para alcançar a pequena Lenno, onde se acha a mansão mais linda do Como. Trata-se da Villa del Balbianello, erguida em 1700 pelo cardeal Durini, numa romântica península de frente para a Ilha Comacina - a única de todo o lago. A casa já foi abrigo religioso, loja maçônica e ponto de encontro de escritores e poetas. Não é à toa que o romance Promessi Sposi, pilar da literatura italiana, é ambientado no Lago de Como. O livro foi escrito por Alessandro Manzoni, um dos freqüentadores da Villa del Balbianello.

Atualmente, a propriedade volta e meia é alugada para produções cinematográficas. Não pense que estamos falando aqui de dramas de Bertolucci ou Tornatore. O prodigioso jardim foi o set de filmagens do casamento de Anakin Skywalker e Padmé Amidala, no blockbuster americano Guerra nas Estrelas - O Ataque dos Clones. Também serviu de esconderijo para James Bond, o agente 007, no último filme da série, Casino Royale.
Se a Villa del Balbianello é a mansão mais formosa do Lago de Como, poucos quilômetros além surge o hotel de maior fama por aqui. É o primoroso Villa d'Este, em Cernobbio. Nos quartos deste mítico edifício (na verdade, uma mansão construída em 1500) já passou "todo mundo que conta no mundo". Em outras palavras, é a hospedaria das celebridades, dos altos escalões da política, dos magnatas. Um recanto coalhado de obras de arte, cercado por um jardim de 10 hectares - o equivalente a dezesseis campos de futebol. E mais: o lugar onde floresce um plátano de 500 anos de idade, talvez o mais velho da Itália.
Tanto luxo não é prerrogativa exclusiva do Lago de Como. O Lago Maggiore - ou Verbano -, rivaliza com o vizinho, ainda que de forma mais discreta. Ele se divide entre a Lombardia, o Piemonte e um pedacinho da Suíça. Foi a principal estrada usada para construir as grandes igrejas de Milão. As pedras das cavas chegavam àquela cidade de barco, graças aos navigli, os canais pródigos nesta parte do país.
Os grandes senhores neste lugar foram, primeiro, os Visconti e, depois, os Borromeo, que empreenderam obras magníficas como as fortalezas de Angera e Arona - a primeira ainda intacta, sede atual do interessantíssimo Museu das Bonecas.
No meio do Maggiore, esses líderes do passado celebrizaram algo que deixa os visitantes espantados: as Ilhas Borromeas, situadas bem na frente da cidade de Stresa. São três porções de terra qualificadas pelo escritor francês Gustave Flaubert como "um paraíso terreno". Obviedade, sim - mas com um bom aval. Acredite: as ilhas abrigam 150 variedades de camélia trazidas do Japão em 1828. As flores somam-se a um cipreste de Cashemira e a pavões, papagaios e outras aves nada européias.

Se Flaubert cunhava adjetivos para as Borromeas, Charles Dickens fazia o mesmo para outro ponto lacustre: a Ilha Bella. Segundo o autor inglês, ela é "espetacular e inusitada". Bem, vale o aval... Assim como a aprovação de um de seus maiores fãs, Napoleão Bonaparte, que, entre uma guerra e outra, gostava de descansar aqui.
O Maggiore, aliás, sediou a famosa Conferência de Stresa, em 1935, entre França, Inglaterra e Itália. Ainda que a Itália posteriormente mudasse de lado, esse encontro lançou as bases da resistência ao nazismo. Ocorreu aqui porque se trata de um lugar luxuoso, mas reservado, que parece não tão dado à publicidade quanto o Lago de Como. Difícil não perceber isso ao visitar lugares como o ermo de Santa Caterina del Sasso. Esse esconderijo, escavado na rocha em um recife que desce pela água, serve de retiro espiritual desde 1171.
A própria Stresa, conhecida como "A Pérola do Verbano", é chique e prestigiosa, ainda que muito tranqüila. Ela atraiu ao longo dos séculos algumas das maiores figuras da história da Europa: Sthendal, Chateaubriand, Dickens, Dumas, Lord Byron O ar cultural perdura com as Semanas Musicais de Stresa, realizadas entre agosto e setembro. São trinta dias de belas sinfonias, executadas pelos melhores artistas do planeta.
A cidade encanta também com seus hotéis históricos, que hospedaram, entre outros, o rei Umberto II, a princesa Margareth, da Inglaterra, Clark Gable, George Bernard Shaw, Charlie Chaplin, Nelson Rockefeller, Benito Mussolini e Ernest Hemingway. Este último, dizem, datilografou aqui algumas páginas de Adeus às Armas.

Se o elegante Maggiore e o alegre Como não lhe forem suficiente, há uma terceira opção - e que opção! É o Lago de Lugano, tão atraente e, ao mesmo tempo, diferente dos outros. Seu nome oficial é Lago Ceresio e ele fica mais na Suíça que na Itália. E daí? Neste canto do mundo, as fronteiras não separam o bem-estar, que é contínuo.
A estrela aqui é, obviamente, a cidade de mesmo nome. Lugano tem vivacidade italiana e precisão suíça, com tudo funcionando como manda o figurino. É território de manifestações culturais no ano todo, com um concentrado de galerias de arte e restaurantes de alta cozinha capaz de causar inveja a qualquer urbe européia.
Digamos, porém, que você deseja algo mais mundano em sua turnê pelos lagos alpinos. Tudo bem. A 10 quilômetros de Lugano fica o cassino da Villa de Campione d'Italia, um enclave lombardo em pleno território suíço - parece erro de cartografia!
Não se espante em ver figurões da política e da vida artística torrando euros na roleta. Jogar no cassino só perde em popularidade para o passeio pela bucólica comuna suíça de Morcote, onde se fala o idioma de Dante, ainda que a arquitetura e o jeitão do povo dêem sinais de se estar na terra do chocolate e da neutralidade absoluta. Aqui, quem manda é a natureza, o desafiador bordado da costa e o azul da água, que se confunde com o do céu, ressaltando o verde das montanhas. Um lugar sem tempo e bem longe do vip watching. Quem sabe George Clooney não se muda para cá?

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