Os bons tempos voltaram
O bairro mais famoso dos Estados Unidos ressurge com glamour insuperável e o desejo de voltar a ser o lugar mais descolado do país
Texto e fotos de Paulo D'Amaro
Matéria publicada na edição 92 (Junho/2007) de Próxima Viagem
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Passear por Hollywood é trilhar um mundo paralelo. É engalfinhar-se no universo dos filmes, da música, do showbiz e nas histórias de amor, nos escândalos, no sucesso e no drama que elas geraram. Cada esquina tem seu conto. Do bar onde Marilyn Monroe beijou pela primeira vez o astro do beisebol Joe DiMaggio, em 1953, à calçada em que o ator River Phoenix agonizou com overdose quarenta anos depois, em 1993. Do hotel onde se realizou a primeira cerimônia do Oscar, em 1929, ao clube em que Jim Morrison e os Doors despontaram para o mundo em 1967. Da casa de shows onde Jim Carrey iniciou sua carreira de comediante, em 1982, ao bistrô em que a cantora Jéssica Simpson é vista hoje em dia, almoçando tranqüilamente.
É um lugar tão peculiar que muitos o confundem com uma cidade. Equívoco. A rigor, Hollywood não passa de um bairro na zona nordeste de Los Angeles. No começo do século 20, era repleto de terrenos baratos, onde fazia sol 320 dias por ano. Ideal para a explosiva indústria cinematográfica, que rapidamente começou a avançar sobre o subúrbio. Quando a Segunda Guerra Mundial chegou, a região fervilhava. Mais de 300 filmes chegaram a ser produzidos anualmente pelos oito grandes estúdios e uma infinidade de pequenas companhias. O arrabalde ganhou vida própria, tanto que é hoje em dia o único bairro de Los Angeles com um prefeito honorário e diversas outras regalias.
O mundo passou a conhecer Hollywood não só pelos longas-metragens que saíam daqui, mas também pela cerimônia de entrega do Oscar, pela Calçada da Fama, pelo inconfundível letreiro com o nome do bairro, pelas imponentes salas de exibição, como o Teatro Chinês, e pelos hotéis, restaurantes e casas noturnas onde ricos e famosos desfilavam. A revoada de celebridades espalhou a opulência, fazendo germinar alguns dos distritos residenciais mais apurados do planeta, como Beverly Hills e Bel Air, vizinhos igualmente afamados.
Não parou por aí. Hollywood extrapolou as fronteiras da tela grande. A partir dos anos 1950, as grandes cadeias de televisão dos Estados Unidos também instalaram seus estúdios principais no bairro. E na década de 1960 foi a vez de as companhias fonográficas arrastarem seus cantores para cá. Enquanto a degradada Nova York dos anos 1970 detinha heroicamente a Broadway e suas soberbas produções teatrais, o cintilante arrabalde californiano roubava para si quase todo o resto do showbiz americano.
Ironicamente, foi a partir dos anos 1970 que uma rápida decadência assolou a meca do cinema. Inchada pela imigração em massa, com seus metros quadrados e seus serviços cada vez mais caros e sufocada pelo crescimento de Los Angeles, ela perdeu o fôlego. Quase todos os estúdios se mudaram para outras cercanias californianas e até para o Canadá, em busca de espaço, terrenos baratos e incentivos fiscais - exatamente os mesmos motivos que haviam feito nascer Hollywood setenta anos antes. Hoje em dia, apenas a Paramount mantém a produção de filmes nessas bandas.
O resultado foi quase vinte anos de declínio. Um baque que deixou marcas, e do qual agora o bairro começa a se recuperar. Até mesmo um movimento "separatista" surgiu. Desde 2002 uma campanha popular tenta emancipar Hollywood, tornando-a um município independente. A alegação é que a prefeitura de Los Angeles embolsa os impostos e não dá a devida atenção ao lugar. Faz sentido. Recentemente, as obras mal planejadas do metrô simplesmente causaram rachaduras na Calçada da Fama. Um sacrilégio que enche de indignação comerciantes e moradores.
Por isso, visitar Hollywood hoje é garantia de sensações diversas. Há feridas evidentes nas fachadas e nas calçadas. Mas, ao mesmo tempo, persiste um inabalável glamour e vicejam incontestáveis sinais de renascimento. O bairro passa pelo que os urbanistas pomposamente chamam de "gentrificação", ou seja, a transformação de áreas degradadas em cercanias nobres, graças ao aproveitamento da arquitetura e a preservação de marcos históricos. Em outras palavras, lofts descolados e condomínios na medida para jovens executivos são inaugurados a cada mês, ocupando desde galpões abandonados até majestosos hotéis que foram à bancarrota.
SEGUINDO O EXEMPLO DE NOVA YORK
Enfim, um fenômeno semelhante ao que varreu o Soho e o Harlem, resgatando encantos à combalida Nova York dos anos 1970. A comparação, por sinal, não é descabida. Andar pela Calçada da Fama, em frente ao Teatro Chinês, lembra cada vez mais um passeio na Times Square. São mais e mais luminosos e letreiros alegremente poluindo a fachada de edifícios e as construções. Restaurantes da moda, sorveterias e lojas elegantes pipocam pela parte nobre do Hollywood Boulevard, onde o grande catalisador da mudança foi o Kodak Theater, sede atual da entrega do Oscar. Inaugurado em 2001, ele deu um ar moderno e imponente ao local. Na verdade, o teatro faz parte do Hollywood & Highland Center, um megaespaço de entretenimento que abriga desde lojas chiques como GAP e Sephora até pistas de boliche, cinemas e o Renaissance Hollywood Hotel, um dos mais luxuosos de Los Angeles.
Atravessando a rua, a renovação continua a dar as caras. O histórico Hollywood Roosevelt Hotel, que acompanhou o declínio da região, voltou a brilhar com reformas recentes e uma filosofia jovial. Basta ver a fachada, ocupada por uma enorme foto da cantora Madonna, num arroubo publicitário que faz os arquitetos ortodoxos torcer o nariz. Logo ao lado, o El Capitán, um belíssimo exemplo de art déco, construído em 1926, foi salpicado de luminosos coloridos. No momento, ele arrebata milhares de crianças à sua sala de exibição: é ali que os filmes da Disney são lançados.
A poucos metros dele, há três outras atrações imperdíveis para adultos e petizes. Começa pela filial hollywoodiana do Ripley's Believe It or Not, um museu de curiosidades, aberrações e maluquices, inspirado no seriado de televisão apresentado nos anos 50 pelo antropólogo Robert Ripley. Ao lado, seu maior rival: o Guinness World of Records, uma exibição permanente de recordes publicados no famoso livro de recordes Guinness. E, completando a pitoresca trilogia, o Hollywood Wax Museum, talvez o mais conhecido museu de cera do mundo depois do Madame Tussaud's, de Londres. Gente sisuda há de achar tudo isso um amontoado de futilidades. Para os mais descontraídos, é diversão na certa.
O bairro, contudo, não se restringe ao Hollywood Boulevard e a suas atrações espalhafatosas. Há duas outras avenidas deliciosas de se explorar. Quem acompanhou as séries de TV dos anos 90, certamente viu algum capítulo de Melrose Place, o aclamado dramalhão em que jovens yuppies experimentavam paixões, traições e o poder do dinheiro em um condomínio da Melrose Avenue. Para decepção dos telemaníacos, a tal avenida não é tão sofisticada quanto pintava a série. O que não quer dizer que seja sem graça. Melrose se transformou num dos mais inusitados shopping centers a céu aberto da Costa Oeste. Nessa avenida abrigou-se a cultura underground de Hollywood: estúdios de tatuagem, antiquários geridos por hippies, botequinhos lotados de gente com piercings e brechós esquisitíssimos. Tudo entremeado de murais e paredes grafitadas.
Vale a pena entrar na Necromance, uma loja de roupas e acessórios nada convencional. Por entre as prateleiras de camisetas e cintos, você encontra ornamentos feitos com esqueletos de pequenos animais, artigos de bruxaria e até mesmo - eca! - insetos comestíveis. Vale frisar que não se trata de um porão sujo. A loja é arrumadinha e já abriu uma filial na mesma Melrose Avenue.
Agora, se você prefere diversão e gastronomia menos alternativas, o point é a Sunset Strip - o trecho mais a oeste da Sunset Boulevard, já no distrito conhecido como West Hollywood. Esse segmento de 3 quilômetros compete com a vizinha Beverly Hills em restaurantes sofisticados e lojas chiques. E ganha dela quando o assunto são bares e casas de shows - certamente os mais bacanas de toda a cidade de Los Angeles.
Num passeio pela Sunset Strip, você pode ver celebridades almoçando no Petit Four, um bistrô adorado pela cantora Jéssica Simpson e pelo ator Robert DeNiro, ou jantando no Boa, uma "fashion steakhouse" - seja lá o que signifique isso - onde Leonardo DiCaprio é habitué, segundo juram os guias locais.
Se esses lugares lhe intimidam, tudo bem. Algumas passadas a mais e você está no Carney's, um pitoresco vagão de trem instalado numa curva da avenida. Não passa de uma barraquinha de hot-dog, mas uma daquelas classudas, com mesinhas, serviço até a madrugada e sanduíches que conquistaram celebridades da estirpe do apresentador Jay Leno - a versão californiana e mais esguia de Jô Soares. Para competir com o Carney's, desponta na Sunset o Mel's Drive In, a lanchonete mais informal e encantadora de Hollywood. Adentrar seu salão de piso xadrez e mesinhas com sofás vermelhos é voltar à época de Elvis e James Dean. Cenário de filmes e fatos dramáticos, o Mel's serve burgers e shakes como há cinqüenta anos. Bem diferente do chiquérrimo Ketchup, que foi inaugurado neste ano, quase ali na frente, com a missão de provar que fast food pode ser coisa de gente fina.
GARGALHADAS E ROCK'N'ROLL
Nem só o paladar é satisfeito na Sunset. Aliás, convém não comer antes de visitar lugares como o Comedy Store uma das três casas noturnas dedicadas aos stand up comedians. Você pode ter uma congestão ao gargalhar com as gags disparadas pelos melhores humoristas do país. Duvida? Pois saiba que aqui começaram Jim Carrey, Eddie Murphy e até o nova-iorquino Jerry Seinfeld.
Numa mistura curiosa, esses templos da risada se avizinham de palcos onde acordes raivosos prenunciam o mais puro rock'n'roll. Sim, a Sunset Strip tem pelo menos cinco ilustres casas de show, incluindo o Whisky a Go Go, que celebrizou os Doors e que ainda hoje dá espaço a novatos e a veteranos dos palcos. Ele rivaliza com o Rainbow, o tradicional clube em que Marilyn Monroe e Joe DiMaggio se conheceram. Nos anos 1990 - ponha fé! - tornou-se o reduto onde bandas como Nirvana e Red Hot Chilli Peppers ganharam fama.
Agora, se o bochicho da Sunset ainda não lhe convenceu de que Hollywood é merecedora de uma visita, faça como o ácido Truman Capote. Embora maldizendo a capital mundial da futilidade, ele não dispensava um drinque no elegante Château Marmont, o hotel em estilo francês que se esconde numa esquina da Sunset Strip. Nesse local, o favorito de Errol Flynn e Greta Garbo, hoje se hospedam estrelas da música que se apresentam nos bares da avenida. Se é para perder alguns pontos de Q.I., que seja degustando um Martini bem seco ao lado delas.
ROTEIRO PREMIADO
Para curtir Hollywood, antes de mais nada, esqueça o lado leste do bairro (a parte mais à direita do mapa). É a área mais degradada, que ainda não recebeu melhorias. O quente mesmo está na Hollywood Boulevard, onde você acha logo de primeira o Teatro Chinês (1), aquele em cuja calçada as celebridades deixam marcadas no cimento suas mãos. A seu lado, o Teatro Kodak (2), onde ocorre a entrega do Oscar. Ele faz parte do complexo de lojas e entretenimento Hollywood & Highland - imperdível. Logo em frente, o tradicional Roosevelt Hotel (3) e o lindíssimo cinema El Capitán (4), onde ocorrem as estréias de desenhos da Disney. Ande mais um pouquinho para leste e encontre o bizarro Ripley's Believe It or Not (5) e o surpreendente Guinness World of Records (6), dois museus pra lá de divertidos. Atravessando novamente a rua, você depara com o Wax Museum (7), onde astros e estrelas estão imortalizados em estátuas de cera. E por falar em estrelas, a Calçada da Fama se estende por todos esses quarteirões.
Saindo dali, vale dar uma passada nos estúdios da Paramount (8) - os únicos que continuam em Hollywood. Na volta, curta as esquisitices da Melrose Avenue (9), onde o comércio alternativo dá o tom. Termine o dia na charmosa Sunset Strip, devorando um hambúrguer no Mel's Drive In (10) ou jantando no chiquérrimo Boa (11). Depois, escolha entre fechar a noite gargalhando na Comedy Store (12) ou curtindo o rock do Whisky a Go Go (13) e do Rainbow (14).
PROPAGANDA ETERNA
Era para ser apenas uma propaganda de um loteamento, mas acabou virando um ícone americano. Sim, o famoso letreiro de Hollywood foi instalado em 1923 para indicar a colina onde o empreiteiro H. J. Whitley pretendia construir uma série de mansões. O bairro se chamaria "Hollywoodland" e o tal letreiro deveria ser retirado assim que os terrenos fossem vendidos. Mas acabou ficando. Com o tempo, na mesma proporção em que se degradava, perdendo a pintura e apodrecendo, o outdoor ganhava fama pelo visual romântico que proporcionava e pelos suicídios e acidentes bizarros que ensejava. Em 1932, a atriz Peg Entwistle se atirou do alto da letra H, alegando ser o letreiro o símbolo da indústria cinematográfica que a rejeitara. Em 1940, a mesma letra foi derrubada por um motorista bêbado, que rolou precipício abaixo. Foi nessa ocasião que a Câmara de Comércio de Hollywood decidiu reformar e conservar o outdoor para sempre - mas abolindo a terminação "land". Desde 1949, as letras de 13 metros de altura são mantidas em perfeito estado. Exceto nas ocasiões em que engraçadinhos decidem intervir. Em 15 de janeiro de 1976, quando a Califórnia aprovou leis mais condescendentes com o uso de maconha, o letreiro amanheceu alterado para "Hollyweed", que em português significaria algo como "Sagrada Erva"...
SAGRADA DECADÊNCIA
O.k., Hollywood está em franca recuperação. Mas tão certo quanto a restauração do glamour e das fachadas é o longo período que isso ainda deve consumir. O distrito exibe sinais - alguns chocantes - dos anos de declínio. Tome-se o Hollywood Boulevard como exemplo. Se o trecho de cinco quarteirões em torno do Teatro Chinês é limpo, bonito e convidativo, o mesmo não se pode dizer do resto da avenida. Conforme se afasta da Calçada da Fama para o lado leste do bairro, o viajante topa com mais e mais prédios decrépitos, pequenas lojas de produtos a 1,99 dólar (sim, existe isso aqui!), restaurantes de nível duvidoso e alguma sujeira. Antigos cinemas, como o Ritz viraram templos da Igreja Universal do bispo Edir Macedo e teatros que brilharam nos anos 1940 e 1950 hoje estão abandonados. Nessas áreas, não é raro ver pedintes, prostitutas e até furto de objetos deixados no interior dos carros. Nada que um brasileiro não saiba evitar.
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