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Com açúcar e com afeto

Os velhos engenhos de cana-de-açúcar de Pernambuco foram transformados em tranqüilas pousadas. Agora, é possível visitar a história do país com todo o conforto

Bruno Albertim

Matéria publicada na edição 92 (Junho/2007) de Próxima Viagem


Tom Cabral

A cana-de-açúcar é assunto do dia. George W. Bush veio ao Brasil para abordá-lo. Mas também remete a épocas remotas, em lugares como o Engenho Poço Comprido, próximo a Vicência.

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No Brasil do século 17, uma jovem herdeira tinha algo de muito valioso, além de terrenos e jóias, para oferecer como dote de casamento. Caros e raros, alguns quilos de açúcar também constavam do pacote. Sim, esse mesmo açúcar que hoje perde prestígio para o aspartame a cada cafezinho. Mola propulsora da economia mundial da época, o tal do ouro branco era tão importante que, devido a ele, colônias foram anexadas mundo afora. Sem esquecer que incluiu, definitivamente, o Brasil no Atlas.

Agora, a novidade: o passado da cana-de-açúcar, evocação de sinhás e mucamas, casas-grandes e senzalas, voltou com tudo. Explicando: após séculos restritos aos descendentes da aristocracia canavieira, os antigos engenhos de Pernambuco estão sendo convertidos em pousadas charmosas. Algo similar ao que ocorreu com os casarões da Rota do Ouro, em Minas Gerais, e com as fazendas de café de São Paulo. Da próxima vez que você vier a Pernambuco, portanto, avalie a possibilidade de trocar alguns dias do mar azul de Porto de Galinhas pelo verde dos canaviais da Zona da Mata - instalada entre o litoral e o agreste. O dolce far niente é garantido. Idem para a volta ao passado.

QUANDO SUTIÃ ERA "CALEFUR"



Tudo isso é oferecido pelo Engenho Uruaé, na zona rural de Goiana, a 60 quilômetros do Recife. Não houvesse moradores (e, claro, hóspedes), você poderia acreditar lhe terem aberto as portas de um museu. Pudera. Na propriedade de 1736, da casa-grande à senzala, do mobiliário fidalgo à capela, tudo é dos idos em que comprimido era chamado de "cachete" e sutiã, de "calefur".
"O engenho está na minha família desde o início", diz a proprietária, Eleonor Correia da Cunha Rabelo, herdeira de sétima geração do conselheiro João Alfredo, o homem que deu fama ao engenho na época derradeira do Brasil- Império. Abolicionista destacado, ele entraria nos livros no papel de ministro de dom Pedro II. Depois dessa passagem pela história, voltou para o engenho onde nasceu: seus restos mortais repousam na capela, legítimo exemplar da arquitetura religiosa colonial.

A rigor, a única benfeitoria do século 20 é a piscina, no topo de uma montanha diante do canavial. Mas o que chama mais atenção é mesmo a varanda, repleta de cadeiras de balanço circundando o casarão. Quem olha desse ponto descobre que tudo está ao alcance da vista: a antiga senzala, as moradias dos colonos, o pasto. Vislumbra-se, também, a velha estrutura de conversão da cana em açúcar, ou seja, o engenho propriamente dito. Lá estão a moenda, as caldeiras, a casa de purgar. "Nos antigos engenhos, tudo tinha de ficar ao alcance do grito. Era a concentração de um feudo", explica a historiadora Fátima Quintas, estudiosa da sociedade patriarcal dos canaviais.
Hoje em dia, tudo ficou mais relax. O único olhar atento é o de dona Eleonor, sempre disposta a mimar os hóspedes com um bolo quentinho ou um suco das frutas do próprio pomar. Se não ela, um dos empregados. Você não deve se alarmar se esse suco for servido por uma mucama trajada de anáguas, saias e mais saias, típicas do século 18. Apesar da grita politicamente correta - e de críticas da imprensa pernambucana -, dona Eleonor faz questão de vestir os funcionários com figurinos de época. Os brancos, de senhores e sinhás. Os negros, de escravos.
"Não me incomodo em me vestir de escrava. Acho importante, porque mostra uma época que não pode ser esquecida", diz a camareira Tereza Cristina da Silva, uma negra de 28 anos, descendente de antigos cativos do Engenho Uruaé. "É só uma personagem", ela dá de ombros, deslizando entre as sete salas onde a vida social da casa grande se dava em meio a cristais da Bohêmia e jacarandás. A atmosfera do casarão é puro Frans Post.

Quem foi ele? Bem, esse artista fazia parte da comitiva do conde Maurício de Nassau, o holandês que ocupou Pernambuco de 1637 a 1644, de olho no açúcar. Mas Post não era só mais um na entourage. Ele foi o primeiro pintor a registrar as paisagens e a gente da nova terra. Infelizmente, a maior parte de sua belíssima obra não ficou no Brasil. O próprio Nassau, vaidoso, cedeu mais tarde as principais telas para o governo da Dinamarca, em troca do título de príncipe.

Eis aí uma história boa de ouvir em um bucólico final de semana no Engenho Cueirinha, outro endereço precioso transformado em hotel-fazenda. Erguida no município vizinho de Nazaré da Mata, entre muitas montanhas, a propriedade é comandada pela matriarca Nara Menezes e o marido, Rômulo. Com açúcar e com afeto, ela parece receber não hóspedes, mas velhos amigos, que se refestelam na piscina diante de árvores coalhadas de frutas ou passeiam a cavalo até o açude mais próximo. Além de licores memoráveis e das frutas cristalizadas - que já encantavam o comilão Nassau - a mesa de Nara é uma permanente exibição do melhor que a cultura do açúcar gerou para a culinária da região. Insira nessa lista os encantadores bolos de frutas, o bolo-de-rolo - um rocambole finíssimo recheado com goiabada - e o importante bolo Souza Leão, criado no próprio Engenho Cueirinha. Sua relevância se deve a um pioneirismo: pela primeira vez, o trigo europeu foi substituído pela farinha de mandioca
nativa numa receita de casa-grande.

TRILHAS EM VEÍCULOS 4X4



"Cozinhar é uma devoção que aprendemos desde pequenos", diz Nara, orgulhosa da tradição familiar e da variedade de sua mesa, em que despontam pamonhas, munguzá, cuscuz de milho, carne-seca, bode guisado, tapioca, beiju, biscoitos e compotas. Muitas compotas. Oportuno lembrar que estamos na área mais pródiga na criação de doces no país. É bem verdade que a cana-de-açúcar também logrou sucesso no Sudeste, ou melhor, nas fazendas da Capitania de São Vicente, mas foi em Pernambuco que sua contribuição culinária ganhou mais requinte. Autor de Casa Grande e Senzala e, também de Açúcar - Uma Sociologia do Doce, o sociólogo Gilberto Freyre escreveu: "O Nordeste é a área da arte do doce no Brasil. Tanto o doce aristocrático como o doce de tabuleiro".

Sorte que essa tradição vem sendo preservada não só no Cueirinha como em quase todos os engenhos abertos a hospedagem. O melhor: o sistema é all-inclusive, ou seja, paga-se a diária e a mesa fica permanentemente franqueada. Também é assim no Engenho Casa de Campo Angico, em Itambé, onde a volta ao passado já começa no caféda- manhã, servido de frente para o vale, numa autêntica e tradicional casa-de-farinha. No forno rústico de cerâmica, tapiocas e beijus são confeccionados na hora e, em poucos minutos, juntam-se aos pães caseiros, queijos e demais guloseimas. Também aqui a culinária é um dos principais atrativos. Do churrasquinho (que pode ser feito com carne de bode) à beira da piscina à ceia regional da madrugada, seis refeições são oferecidas ao dia. "Meus hóspedes entram na cozinha a hora que querem", diz a proprietária, Lúcia Carneiro Leão. "Nossa intenção é deixá- los sempre muito à vontade."

Pois, então, prepare-se para tarefas tão árduas quanto submeter-se a uma sessão de hidroterapia ou de massagem no meio de um bosque. Ou subir no cavalo e seguir rumo à antiga casa-grande, hoje desativada e em reforma. Ao final da tarde, vai bem uma pescaria no lago - vendo, ao longe, os jacarés lagarteando nas ilhas. Ou, quem sabe, uma imersão numa rede sob as árvores, essa insubstituível instituição nordestina.
Há ainda a possibilidade de percorrer o centro das cidades próximas. Em Goiana, a feira livre diante da Igreja da Matriz faz parecer que você entrou numa letra de Luiz Gonzaga. Tem mais: diversas igrejas da região guardam tesouros do barroco, embora o estado de conservação de algumas lhe dê vontade de ligar para a representação mais próxima do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (como se adiantasse, já que vários templos seculares estão ocultos por placas do Iphan que denunciam obras intermináveis de recuperação). Entre as cerca de 200 peças de seu acervo, a Igreja do Rosário dos Homens Pretos, por exemplo, mantém uma Nossa Senhora de quase 2 metros banhada em ouro. Foi presente da princesa Isabel à comunidade de cativos.

Outro programa é fazer uma trilha em veículos de offroad pelos canaviais e reservas de Mata Atlântica. Para isso, o melhor pouso é a Fazenda Engenho Cordeiro, a única que organiza trilhas radicais com veículos de tração nas quatro rodas. Trata-se de um latifúndio tão imenso que se espalha entre os municípios de Carpina e Lagoa do Carro.
Ex-produtor de açúcar mascavo, o engenho apagou as moendas, resolveu vender a cana como matéria-prima para as usinas próximas e hoje é um descolado míni-resort rural. Minúsculo, aliás. O atendimento é forçosamente personalizado: são só oito suítes, todas na ampla casagrande. O clima evoca uma casa de campo - mas com serviço de hotelaria. Em geral, há mais empregados do que hóspedes. Todos dispostos a abastecer com um drinque quem aplaca o calorzinho da manhã na piscina. A canade- açúcar, enfim, trouxe dinheiro e o problema da monocultura, sina que, em algumas regiões, resiste até os dias de hoje. Nessa leva, seja como for, resistiu um patrimônio preservado, felizmente sem escravos ou senhores. O doce, por estas bandas, já não amarga.

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