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Rolê apimentado

De novo em grande forma, é hora de explorar a Riviera Maia com mais liberdade, de carro

POR HENRIQUE SKUJIS. FOTOS DE ÉVERTON BALLARDI

Matéria publicada na edição 104 (Junho/2008) de Próxima Viagem


Não falta tempero nesta jornada de 700 quilômetros pela Riviera Maia

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Cancún nem precisava de uma Plaza de Toros. Mas, embora poucos brasileiros venham a este pedaço do México para ver o sangue correr, até uma tourada (daquelas de verdade) entra na agitada programação do mais famoso resort mexicano. Há quem goste do controvertido embate das arenas e por isso o público costuma ser grande no "espetáculo" que acontece todas as quartas-feiras no centro da cidade, encerrando uma tarde folclórica. Outros, no entanto, certamente preferem usar o tempo de férias para conhecer melhor a região que se esparrama a partir de Cancún. Para isso, a idéia de alugar um carro nunca esteve tão em alta.

No passado, o expediente talvez não se justificasse. Cancún era um resort sem vizinhança e as atrações nas suas proximidades eram mais facilmente atingíveis em ônibus de excursão. Nas últimas décadas, porém, o jeito de viajar mudou muito por aqui. Uma costa antes deserta começou a desenvolver-se, a sofisticar-se e a ganhar reputação. Agora, não se trata apenas de Cancún. Mas da Riviera Maia. Fazer um roteiro de carro pelas estradas da Península de Yucatán, no nordeste do México, tornou-se um programa para viajantes que pretendem ir mais longe.

Antes de tudo, é bom dizer que neste pedaço de terra viveu um povo que há mais de meio milênio desenvolveu um alfabeto, "inventou" o número zero e criou dois calendários baseados em complexas observações astronômicas. Seus descendentes ainda estão por lá. E as ruínas das complexas cidades de pedra erguidas por eles também - Chichen Itzá é apenas o mais famoso e preservado entre os setenta sítios arqueológicos maias da área. Outro aviso que merece menção logo de cara é que a parte oriental desta península é banhada pelo inigualável Mar do Caribe e pela segunda maior barreira de corais do mundo - atrás apenas da australiana. Para terminar o preâmbulo, saiba também que os mais longos rios submersos do planeta correm sob esta terra e vêm à tona em mais de 10.000 piscinas naturais conhecidas como cenotes.

A largada de nossa viagem acontece em Cancún, sem dúvida o destino mais conhecido do pedaço. A cidade criada há 37 anos, unicamente para atrair o turismo, fica em uma ilha de 25 quilômetros de comprimento por 500 metros de largura. Nesse aperto margeado pelo mar e pelas lagunas Bojórquez e Nichupté, passa a Avenida Kukulcán, onde se sucedem mais de 100 hotéis, meia dúzia de shopping centers (pra dasluzete nenhuma botar defeito), restaurantes, bares e casas noturnas. Cerca de 3 milhões de turistas (mais da metade deles dos Estados Unidos) vieram passar as férias aqui em 2007, quando a cidade ainda se recuperava da passagem devastadora do furacão Wilma. No dia 22 de outubro de 2005, a tempestade fez a "gentileza" de estacionar aqui por mais de trinta horas. Não matou, não feriu e pouco destruiu, mas os prédios foram invadidos por tanta água e areia que precisaram passar por uma senhora reforma. Prejuízos à parte (imaginem a conta das seguradoras), o fato é que Cancún renasceu melhor do que nunca. Os hotéis estão mais numerosos, sofisticados e modernos. O número de quartos, por exemplo, duplicou para 27.000, sendo 20.000 deles com emblema de cinco estrelas.

Por isso, é preciso pedir trégua à preguiça para conseguir vencer a vontade de apenas zanzar pelas dependências do hotel. Do quarto para o banheiro, para o café-da-manhã, para a sala de leitura, para a quadra de tênis, para a piscina, para a massagem, para o bar, para o restaurante, para a siesta, para a praia, para o spa, para a piscina, para o banho, para o jantar, para a cama. Mas você há de conseguir deixar para depois o ócio (que não precisa, mas pode ser produtivo). Pois seria descaso com a própria felicidade ignorar a disneylândia de atrações espalhadas nesta próspera quina do México. Não dá, por exemplo, para dispensar um passeio de lancha (com você no volante) até a já citada barreira de corais. Como evitar um mergulho com golfinhos em Isla Mujeres (os ecologistas que nos desculpem)? Tem como dispensar o pôr-so-sol no deck de Playa del Carmen? Você pode ousar mais e dar um rasante no mar do Caribe "a bordo" de uma tirolesa. Ou ainda explorar os já mencionados rios submersos depois de criar coragem e pular dentro de um cenote. Outro compromisso que você, sem desculpas, precisa selar com você mesmo é percorrer pelo menos dois dos três sítios arqueológicos maias apresentados nesse roteiro. Feito tudo isso, sem, é claro, deixar de lado as benesses do seu hotel, você poderá voltar para casa com motivos de sobra para bendizer a Península de Yucatán, apesar da tourada.

Saindo de Cancún e rumando para o sul, pela MEX 307, você será um privilegiado viajante da Riviera Maia, faixa costeira de 135 quilômetros que se estende rumo às proximidades de Tulum. A sucessão de resorts e de "ecoparques" que chegaram ali na última décadas e passaram a construir por cima de manguezais tem deixado de cabelo em pé os ecologistas e as tartarugas que desovam por lá. É possível conhecer as atrações do caminho e, no fim do dia, voltar para dormir em Cancún.

Mas, para mudar de ares, vale a pena seguir de mala e cuia para um destes luxuosos resorts ou para um hotel em Playa del Carmen, cidade com crescimento populacional espantoso. Calcula-se que dos anos 90 para cá, o número de habitantes tenha saltado de 30 ou 40.000 para mais de 200.000 - esqueça os dados oficiais que falam em 54.000 pessoas. De dia, entregue-se à praia. À noite, circule pelo curioso calçadão batizado de Quinta Avenida. Repare que o número de turistas americanos cai e o de europeus sobe em relação ao que se vê em Cancún.

Note também como o jeito de se vestir fica mais descontraído. Saem os saltos altos, entram as sandálias rasteiras. Pelo calçadão, há desde restaurantes sofisticados, que mesclam o toque picante da culinária simples de Yucatán e uma gastronomia contemporânea, até os mais conhecidos, tentadores e insossos fast-foods.

Mais ao sul, a estrada chega ao Cenote Dos Ojos, listado entre as mecas dos mergulhadores. Os rios que correm ali embaixo fazem parte de um complexo de 57 quilômetros. É o terceiro maior curso d'água subterrâneo do mundo - os dois primeiros não ficam longe daqui. Quando você estiver batendo o pé de pato e respirando pelo snorkel diante de belas estalactites e sobre mergulhadores com dois cilindros de oxigênio nas costas, lembre-se de que os cenotes foram lugares sagrados para os maias. Ali, eles realizavam os rituais e até seus sacrifícios - no cenote de Chichen Itzá, por exemplo, onde perder a cabeça em nome dos deuses era uma honra, foram encontrados crânios, peças de ouro e uma porção de pedras preciosas.

No extremo sul da Riviera Maia está Tulum, cidade maia que floresceu entre 1200 e 1521. Não acredito que isso seja possível, mas caso você já esteja cansado de ver ruínas, não tem problema. Nos arredores de Tulum, esparramam-se as mais belas e tranqüilas praias da região. Se estiverem cheias de gente (o que é comum, principalmente depois das 10 da manhã), evite os dois cinematográficos trechos de areia diante das ruínas. Siga mais 1 quilômetro em direção ao sul (a pé ou de carro) e desfrute praias tão belas quanto as citadas aí em cima e vazias o suficiente para o topless ser prática comum. Tem El Paraíso, tem Zazil-kin... Nesse pedaço do litoral, os preços dos hotéis despencam. O luxo, a sofisticação e a qualidade do serviço, é verdade, também. Sobra, no entanto, autenticidade nas singelas cabanas fincadas na areia, que cobram 40 ou 50 dólares pelo pernoite.

O mais legal ali é pegar um passeio de barco e balançar até a barreira de corais para mergulhar entre peixes coloridos bem na frente daqueles imponentes mas destruídos templos quase milenares de Tulum. Com um olho no fundo do mar e outro no passado, ao lembrar que sua viagem está próxima do fim, você vai pensar seriamente na hipótese de rasgar a passagem de volta.

MIL ANOS ATRÁS


Um tranqüilo passeio sobre rodas pelo interior da Península de Yucatán leva a Chichen Itzá e a Cobá, duas cidades que atingiram o auge por volta do ano 800. A primeira recebe mais de 3.000 turistas todos os dias e é a mais restaurada das ruínas mexicanas. A segunda, por outro lado, tem apenas uma dúzia de suas 6.500 estruturas escavadas. Por isso, enquanto em Chichen Itzá é até difícil escutar o que o guia tem a contar sobre as artimanhas da engenharia, cheias de fórmulas matemáticas, utilizadas por maias e toltecas para erguer os monumentos de pedra, em Cobá, o viajante se sente um arqueólogo em meio a tantos templos ainda cobertos pela floresta.

ÔNIBUS OU ROLLS-ROYCE?


O carro é uma mão na roda para cumprir a deliciosa agenda "imposta" pela Península de Yucatán. As estradas, apesar de carecerem de uma sinalização mais inteligente, são largas e desconhecem buracos. O trânsito também é uma moleza, exceto nos trechos urbanos da MEX 307, que margeia o litoral. Em Cancún, cidade pouco anfitriã para quem gosta de caminhar, o carro também cai bem, mas, a bem da verdade, você tem a opção de só tirá-lo da garagem se bater aquela coceira na mão, típica de quem mora em cidade grande. Para circular pela Avenida Kukulcán, coluna vertebral da zona hoteleira, é possível subir sem medo nos ônibus de linha. Eles são baratos, eficientes e trazem uma interessante mistura de mexicanos a trabalho com loiras americanas com jeitão meio Paris Hilton, meio Britney Spears. Dá também para pegar um táxi, com tarifas que não chegam a ser salgadas. Ou ainda abrir a mão e fechar um tour com as agências que despacham uma van para lhe buscar na porta do hotel. Uma opção mais, digamos, suntuosa, é bancar os 400 dólares/hora deste Rolls-Royce à disposição no Hotel Aqua. Mudando de assunto, note, no fundo da foto, o esqueleto de um hotel - relíquia devastadora do furacão Wilma.

BEBA SEM VIRAR


Depois que o Sol se põe, Cancún ganha ares paradoxais: do bizarro ao elegante. Se por um lado há restaurantes sofisticados com vista para a lagoa, onde casais com sua melhor roupa degustam saborosos frutos do mar, há também esquinas que servem de palco para passos e gritos bêbados de estudantes made in USA. Nos bares em frente à famosa Coco Bongo, que ostenta na fachada enormes fotos de Madonna e Michael Jackson, os garotos, proibidos de chegar perto de qualquer gota alcoólica em seu país, pagam 10 dólares, ganham o direito de virar uma tequila atrás da outra, tiram a camisa e ficam à beira da sarjeta. São como estes os enviados de Bush para "tomar conta" do Iraque? Para uma noite mais mexicana, siga até "downtown" Cancún. Desculpe voltar a citar a Plaza de Toros, mas um bar que merece visita ali é o La Faena, escondido sob as arquibancadas da arena.

Sentado entre mexicanos, enquanto escuta uma harmônica e barulhenta música ao vivo e aprecia a decoração voltada para exaltar touros e toureiros, você vai conhecer um pouco mais dos jeitos e manhas dos descendentes dos maias e vai perceber que, ao contrário do que acontece mundo afora, a mania de virar o copo de tequila goela abaixo não tem vez. A bebida - feita do agave - deve ser saboreada aos goles. Apesar do teor alcoólico variar sempre de 38 a 40 graus, existem três tipos de tequila. A mais forte é a blanca, que não passa por envelhecimento. Um pouco mais suave, a reposada descansa pelo menos dois meses em barril de carvalho. Ainda mais leve (mas com o mesmo teor alcoólico), a añejo é envelhecida por mais de um ano. Nos três casos, exija o rótulo "100% agave". Para preparar o paladar para a rodada seguinte, peça uma sangrita, feita com sucos de laranja, tomate e limão, molho inglês, molho de pimenta e sal.

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