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Visconde de Mauá

A vila da Serra da Mantiqueira era reduto dos hippies. Vem se tornando um refúgio chic. Como a estação de inverno americana

POR LUIS PATRIANI. FOTOS DE ROBERTO SEBA

Matéria publicada na edição 104 (Junho/2008) de Próxima Viagem


Fogo queimando - e aquecendo. Há lareiras nos melhores hotéis

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O gaúcho Irineu Evangelista de Souza, o visconde de Mauá, era um homem adiante do seu tempo. Brigou contra o comodismo e a resignação. Irrequieto, empregou 1.000 operários para fabricar de tubos de encanamento a navios. Fundou um banco. Construiu uma estrada de ferro. Tudo isso no Brasil conservador do século 19. Ele era um visionário.

Exatamente por isso, provavelmente, ficaria fulo da vida com certos descasos da vila que, hoje, leva seu nome. Mauá, o visconde, instalou a iluminação pública no Rio de Janeiro. Já Mauá, a vila, viveu às escuras até a metade da década de 80 do século passado. O resoluto visconde pavimentou a primeira estrada brasileira. Por ironia, a vila que o homenageia no batismo ainda tem o acesso limitado a quem encara uma modestíssima estrada de terra. Se não bastasse, o caminho é íngreme, serpenteando a Serra da Mantiqueira. Há, sim, promessas de que a tal via - cujo ponto de partida é a cidade de Penedo - será asfaltada a partir de agosto. Resta aguardar. Sem a pressa do visconde para transformar o Brasil, sejamos realistas.
Realistas, mas justos: o ambicioso visconde também teria motivos para se orgulhar da vila fluminense, pertencente ao município de Resende e erguida à beira da Via Dutra - a 200 quilômetros do Rio de Janeiro e a 310 de São Paulo. Se a estradinha vicinal permanece sofrível, Mauá vem demonstrando avanços e transformações de impressionar.

Como, aliás, aconteceu com suas vizinhas da Serra da Mantiqueira. Tinha de acontecer. Há muito, a cidade de Campos do Jordão deixou de ser um centro de recuperação de pacientes com problemas respiratórios para se tornar a mais requintada estação de inverno do país. Há pouco, Monte Verde passou de retiro de um alemão excêntrico a refúgio de casais exigentes - e apaixonados. Há ainda menos tempo São Francisco Xavier começou a acolher as primeiras pousadas descoladas. Já Mauá conseguiu, ao longo das duas últimas décadas, uma proeza que raríssimos ousaram atingir: de hippie virou chic. Fenômeno ocorrido com apenas dois roqueiros - Bryan Ferry e David Bowie.

É bem verdade que, em seus arredores, Maromba ainda celebra anacronismos como rodas de violão em que o repertório de Raul Seixas e Renato Russo permanece uma exigência. Boa parte desses encontros, contudo, ocorre agora diante da lareira de uma pousada aconchegante. Como diria Bob Dylan, os tempos estão mudando. E como reafirmariam os Rolling Stones, eles não esperam por ninguém.

Sejamos justos, mais uma vez: a resistência aos benefícios da modernidade vinha dos próprios moradores. Em especial dos ex-hippies, embora em gradual mutação. Marco Antônio Campagnani e Cássia Freitas, donos da pousada Casa Bonita, acham graça ao lembrar o dia em que, enfim, aceitaram as benesses da luz elétrica. "Eu havia tropeçado na penumbra e quebrado um prato pela milésima vez", conta Marco, às gargalhadas. "Foi a gota d'água. Depois disso, disse para mim mesmo: não vou mais lutar contra o inevitável." Hoje, a energia rejeitada naqueles tempos serve para ligar os quentinhos lençóis térmicos dos chalés da requintada Casa Bonita. A exemplo de Marco Antônio e Cássia, muitos dos atuais proprietários das reconfortantes pousadas engrossavam (no bom sentido) os filões da turma do flower power. Ainda garotos, vinham acampar. Ou então alugar um casebre com os amigos para passar alguns dias "no meio do mato". Hoje, esmeram-se em oferecer aos hóspedes o luxo antes desprezado.

O Hotel Fronteira, como o nome adianta, foi o divisor de águas entre a hospedagem simples e as luxuosas. Ivan Marinho e Laura Martineli, os donos, se revelaram corajosos à beça ao resolver montá-la nos anos 80. Na época, houve quem os visse como insanos. Procedia: como sustentar um hotel com tapetes persas, quadros de Manabu Mabe e até - pequeno intervalo para você pasmar - vasos sanitários de ouro, em um lugarejo em que não havia sequer telefone? Nada como bons contatos. Devido a eles, proeminentes da alta sociedade baixaram por aqui. De helicóptero. Logo se deslumbraram com a vista do Pico das Agulhas Negras, contemplada com um bom tinto no terraço dos exclusivos chalés. O boca-a-boca dos bacanas encarregou-se do resto.

No rabo do foguete do Fronteira vieram outros insanos - ou melhor, empreendedores. Todos eles amantes da natureza como os ripongas. Mas também cientes de que seria melhor oferecê-la aos hóspedes na moldura de um quarto dotado de hidromassagem. Tão bom ou melhor: ao som de um álbum do be-bop de Dizzy Gillespie.

Música ainda é essencial em Mauá. Fosse em outra época, os freqüentadores ouviriam "o disco da vaca, o da orelha ou o do prisma", do vetusto Pink Floyd. Agora, o pequeno palco no canto do restaurante da Pousada Terra da Luz, do carioca Henrique Ramos, recebe, nos fins de semana, grandes instrumentistas brasileiros. Entre eles, Leo Gandelman, César Camargo Mariano e o virtuose Yamandu Costa.

O pianista e maestro Nelson Ayres ainda não se apresentou no Terra da Luz. Mas adora prestigiar os colegas de ofício quando vem descansar na sua casa de campo. Na falta de uma apresentação oficial, Nelson enalteceu Visconde de Mauá num disco dedicado à Serra da Mantiqueira. "Tive um caso de amor à primeira vista com Mauá", suspira. "Aqui, as pessoas vivem uma liberdade invejável. É tocante como aceitam as diferenças entre si. Há lugar para todo mundo, do hippie ao executivo endinheirado."

De fato, encontrar um clima harmonioso é tão garantido quanto topar com as temperaturas amenas da montanha, seja no centrinho de Visconde de Mauá ou nas vilas adjacentes de Maromba e Maringá. Em um rápido passeio pelo comércio você notará, lado a lado, o simplório e o chic - dependendo do ponto de vista, claro. Lojas como a Talhos e Retalhos, com suas colchas e teares artesanais, dividem o espaço com os suvenires hippies da Namastê. Também ecléticos são os passeios e os meios de locomoção para desfrutá-los. Quem quiser pode cavalgar pelos vales do Alcantilado, das Flores, do Pavão e das Cruzes, agraciados com cachoeiras e piscinas naturais. Outra opção é a travessia em veículo off-road até o Pico das Agulhas Negras. Para quem tem pernas e pulmões em dia, recomenda-se uma caminhada de 2h30 até o cume da Pedra Selada, com 1.755 metros de altura e magistral vista de 360 graus do Vale do Ribeira.

A variedade de estilos também é notável nas pousadas e hotéis. Por exemplo: a Mauá Brasil não se acanha em carregar nas tintas. Seus chalés foram pintados em cores vivas. Já o ambiente da Jardins do Passaredo faz jus ao nome. Há bromélias e orquídeas até nos quartos. Nem os tucanos resistem. Vira e mexe os bicudos aterrissam na pousada. Na Terras Altas, por seu turno, o atrativo é a adega, com centenas de rótulos de tintos e brancos. "Só num feriado de três dias foram consumidas noventa garrafas", entrega Paulo Gomes, enófilo e proprietário. Façamos as contas: se a pousada tem dez chalés, a média diária de cada um deles é de...? Resposta: três garrafas. A estada foi animada.

Fosse há quinze anos, os casais apaixonados não teriam uma adega à altura. Tampouco um restaurante. No máximo, uma truta perdida em algum modesto botequim. De lá para cá, também a história gastronômica virou.

A transformação começou em 1992, com a chegada do contador Cláudio Rangel e de sua mulher, a secretária bilíngüe Mônica. De início, o casal montou um acanhado café. Eram os alicerces de um plano maior: o restaurante Gosto com Gosto, já premiado como a melhor casa de culinária mineira do país. Entre as criações, destaca-se o Mexidão da Zu, saborosa mistura de arroz, feijão, filé mignon, lingüiça e bacon. Enquanto Mônica capricha no fogão a lenha, Cláudio se esmera nas cachaças artesanais. São 640 marcas de águardente. Da boa. Algumas fabricadas no sítio do casal. Na esteira do Gosto com Gosto desembarcou o chef Julio Buschinelli. Ele planejava montar um restaurante refinado em algum lugar montanhoso próximo à capital paulista. Pensou em Valinhos. Cogitou Vinhedo. Avaliou Atibaia. Mas abriu mão da proximidade com a metrópole ao descobrir a região de Mauá. Aberto há oito anos, em Maromba, o Rosmarinus Officinalis colocou a despretensiosa vilinha no mapa dos restaurantes estrelados. Tem gente que sai de São Paulo ou do Rio para degustar especialidades como o soffiott de mussarela de búfala ao pomodoro e azeite de manjericão. Tudo é feito ou colhido na imensa propriedade às margens do Rio Preto, dos temperos às massas e pães.

Visconde de Mauá conta com 6.000 moradores. É pouco. Mesmo quando abriga o máximo de visitantes, permanece serena. Seus hotéis e pousadas oferecem o limite de 1200 leitos. Pouquíssimo. Nem de longe seu inverno se transforma na balbúrdia do centro de Campos do Jordão. Ainda assim, há mais programas do que na pacata Monte Verde ou na minúscula São Francisco Xavier. Irineu Evangelista de Souza, o visconde de Mauá, é bem provável, desdenharia essas conquistas. Insuficintes, aos olhos de um empreendedor. Mas, vencida a estradinha de terra, você vai achar que a vila tem o tamanho do seu sonho. Tal como desejavam os hippies.

BONS VIZINHOS


Penedo e o Parque Nacional de Itatiaia merecem uma visita. E até uma estada

Se não bastassem todas as opções de lazer em Visconde de Mauá, a região em torno dela tem mais dois lugares bacanas para se conhecer. Penedo é a porta de entrada de Mauá. Para chegar até as charmosas vilinhas (ex-)hippies é preciso passar por essa cidade com cara de Europa. Entre 1927 e 1940, apareceram em Penedo 290 imigrantes finlandeses para ganhar a vida. Cultivaram laranjas, criaram galinhas e formaram uma comunidade sólida. Com a construção da Rodovia Dutra, em 1951, o turismo passou a dar as cartas, atraindo cada vez mais os viajantes entre Rio de Janeiro e São Paulo. A colônia se dispersou. Restam apenas vinte dos pioneiros europeus, mas a cidade mantém até hoje as características de uma vila escandinava - com tempero brasileiro, é claro. Hoje, são 8.000 moradores. Mas, embora pequena, Penedo oferece pousadas e restaurantes sofisticados. O centrinho comercial é outra atração. A vitrine das lojinhas são coloridas e repletas de artesanato de bom gosto. Isso sem falar nos chocolates (inspirados nos suíços) e na cerveja (nas alemães). O Parque Nacional de Itatiaia é o segudo lugar bacana. Imerso na mesma Serra da Mantiqueira, fica a menos de 50 quilômetros de Penedo. Há bons motivos para conhecê-lo. A parte alta do parque mais se parece com a paisagem de outro planeta. E vale o esforço físico para subir o Maciço das Prateleiras, com 2.548 metros, e ver todo o Vale do Paraíba. Na parte baixa do parque os ingredientes são outros. Uma extensa faixa preservada de Mata Atlântica abriga tucanos, macacos e até suçuaranas - uma onça sem pintas, mas com toda a pinta de onça. Entre as cachoeiras, a Véu de Noiva é uma das mais conhecidas. Tem 40 metros de altura e acesso fácil. Outro destaque são as piscinas naturais, como a do Maromba, formada pelo Rio Campo Belo. Detalhe: há bons hotéis dentro do próprio parque.

PENEDO
Hotel Girassol
Av. Casa das Pedras, 766, tel. 3351-1237, www.girassolpenedo.com.br
Muito luxuoso. Tem chalés equipados com ar-condicionado, cama Box King Size e TV Sky. Se conseguir sair dos quartos, divirta-se na piscina ou na sauna seca. Diária para casal a partir de R$ 217, com o café-da-manhã.

Pousada Serra da Índia
Estrada Vale do Ermitão, km 2, tel. 3351-1185, www.serradaindia.com.br
De frente para a Serra da Índia, a vista dos chalés é privilegiada. Os quartos mais luxuosos têm DVD, banheira de hidromassagem e uma cama que não dá vontade de sair dela. Diária a partir de R$ 270.

Restaurante Vernissage
Rua K, 110, tel. 3351-1058, www.vernissagerestaurante.com.br
Fica às margens do Rio das Pedras, com beija-flores voando ao lado de suas janelas. Destaques para o coelho à caçadora, com molho de vinho do Porto, bacon, champignon e purê de aipim (R$ 32).

ITATIAIA
Hotel do Ypê
Parque Nacional, km 13, tel. 3352-1453, www.hoteldoype.com.br
O destaque é a vista panorâmica da parte baixa do parque. É comum, a visita de cachinguelês e macacos-prego na área do hotel. Os chalés alpinos têm lareira, tevê e frigobar. Diária de R$ 270 a R$ 500.

Hotel Donati
Parque Nacional, km 9, tel. 3352-1110, www.hoteldonati.com.br
Os 23 chalés estão em uma área de 250000 metros quadrados, perto da bela cachoeira do Igu Mirim. No frio, além das lareiras, uma piscina coberta e aquecida serve de refúgio. Diária de R$ 240 a R$ 345.

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