A vingança do Recife
Na capital pernambucana e na vizinha Olinda encontram-se cozinhas do mundo todo - inclusive a rica mistura do Nordeste brasileiro
Matéria publicada na edição 100 (Fevereiro/2008) de Próxima Viagem
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A tradição culinária é antiga: no Recife fica o mais antigo restaurante brasileiro em atividade, o Leite, aberto em 1882. O clima sóbrio, de espelhos, mármore e cadeiras de jacarandá, combina com a clientela, formada por políticos, executivos e celebridades - e alguns turistas, estupefatos com o cardápio.
A mistura das cozinhas portuguesa e nordestina encontrada no Leite ecoa em endereços mais novos, como o novo e elegante Portoferreiro, que tem no bacalhau e na cozinha do norte de Portugal sua maior inspiração. A carta de vinhos desse restaurante, com mais de 200 rótulos cuidadosamente selecionados, revela que a cidade está atingindo uma sofisticação gastronômica ímpar na região. Há pitadas de todo canto. Por exemplo: a nova gastronomia espanhola (aquela das espumas e texturas de Ferran Adrià) aparece no É, restaurante contemporâneo que mescla influências catalãs e toques orientais. Cozinhas clássicas? Procure os franceses Maison do Bomfim e Wiella Bistrô e o italiano Othello.
Mas Recife só pode ascender à categoria de novo pólo gastronômico porque sempre cultivou uma rica cozinha local. Do litoral, os peixes e os frutos do mar são a base de peixadas e moquecas com acompanhamentos típicos. Do interior, vêm os pratos com carne-de-sol, galinha de cabidela (cozida no próprio sangue), guaiamum com pirão, buchada, chambaril (carne da canela do boi cozida com legumes), paçoca de carneseca, cartola, bolo Sousa Leão e o bolo-de-rolo. Vale perguntar a um morador descompromissado - um funcionário do seu hotel, por exemplo - sua dica de melhor carne-de-sol da cidade para conhecer uma cozinha bem típica, provavelmente em ambiente simples. Ou partir logo para algo mais elaborado, como o Assucar, que serve uma carne-de-sol grelhada com farofa de jerimum em ambiente moderninho.
Para conhecer a mais surpreendente cozinha do Recife, no entanto, você tem de ir para Olinda. É lá que fica a Oficina do Sabor, do chef César Santos. Há catorze anos, ele resolveu dar vazão ao talento só conhecido pelos amigos e abriu um restaurante numa rua histórica da cidade, a do Amparo.
Quem provou seu jerimum recheado com creme de manga, o jerimum frevoé (com lagosta, camarões e maracujá) e o cabrito à caçadora, naquele ambiente colorido e premiado com uma brisa fresquinha, com certeza já voltou outras vezes. E quer sempre esticar sua estada no Recife, independentemente da beleza da praia ou da piscina do resort.
NÚMERO 89: CARNE-SECA COM FORRÓ
Festa junina, é claro, só tem no mês de junho. Mas, nas vizinhas Caruaru (PE) e Campina Grande (PB), rivais na disputa de melhor São João do Nordeste, as atrações vão além das festividades. Em Caruaru, a imensa feira - mais de 22.000 pontos de venda! - foi cantada por Luiz Gonzaga (quer honra maior?). Tem de tudo: comida típica e exótica, brinquedos, enxovais, livros, discos, peças de trator e um mundo inteiro. Campina Grande é capital mundial do forró o ano inteiro, turbinada pela presença maciça jovem, tanto de universitários como de trabalhadores do pólo de tecnologia e informática. É de Campina Grande que parte o Trem do Forró, em viagens de um dia e muita folia. Mas esse, por enquanto, só funciona em junho.












