Tiradentes, para degustar lentamente
Na cidade histórica mais charmosa de Minas Gerais, tudo conspira para você diminuir o ritmo - da paisagem à apuradíssima culinária
Matéria publicada na edição 100 (Fevereiro/2008) de Próxima Viagem
|
|
Ao passar pela pontezinha sobre o Rio das Mortes que marca o início do centro histórico, você é obrigado a desacelerar. O calçamento de pedra faz balançar os carros, leva as moças a abandonar o salto alto e os passageiros das charretes (usadas tanto por visitantes como por moradores) a sorrir com superioridade. Depois de deixar o carro de lado, você continua em ritmo lento: Tiradentes é um conjunto de ladeiras, e você sempre descobre motivos para subir e descer várias vezes. Assim, quando chega a hora do jantar, você já está desacelerado. Vale a pena sair a esmo pelas ruas, sob a luz suave dos postes antigos (não há fiação aparente por aqui), olhando o cardápio dos restaurantes.
O ambiente do Tragaluz com certeza irá seduzi-lo, principalmente depois de você ler numa lousa, perto da porta, as sugestões do dia, de forte acento europeu. A porta do Theatro da Villa não diz muito - mas basta passar o corredorzinho de entrada para você deparar com um ambiente refinado e acolhedor, moderno e clássico, com um cardápio seriíssimo (no bom sentido) e uma carta de vinhos adequada. Tem também aquela pizzaria, lá depois da Igreja de Santo Antônio, que por sinal se chama Atrás da Matriz, que você ficou de conferir - e terá de fazê-lo, pois suas redondas de massa fina são de primeira. Tem o italiano que você viu de dia e agora não lembra em que rua fica... Deve ser a Trattoria Via Destra, que parece ter sido transportada de uma viela de Veneza para a Rua Direita.
No dia seguinte, mais íntimo da cidade e de seus endereços, aproveite para explorar as artes tiradentinas. O colorido ateliê de Oscar Araripe é um clássico local, como também o são as esculturas de Jango. Os móveis de madeira, as peças de estanho e de pedrasabão, as divertidas galinhas-d'angola, as rendas e as tapeçarias aparecem por toda a cidade. Quando você se dá conta, é hora de almoçar - e de pensar, de novo, em todos aqueles fabulosos endereços. Com um acréscimo: você está em Minas Gerais e, sendo Tiradentes uma cidade de sabores, é rica também em cozinha mineira. O Viradas do Largo - ou Restaurante da Beth, como todos o conhecem por aqui - é uma instituição local, como a própria Beth. Seu feijão-de-tropeiro com costelinha inspira sonhos. E a galinha com ora-pro-nóbis virou uma tradição local. Localíssima, aliás, já que a erva ora-pro-nóbis vem da horta do restaurante.
Tiradentes fica distante das grandes cidades e das maiores rodovias, o que ajuda a preservar seu patrimônio. Mas desafia os cozinheiros locais. Para trabalhar com ingredientes frescos e de qualidade, é preciso criá-los em Tiradentes ou encontrar um similar. Assim, sempre surgem novas descobertas e adaptações, como as geléias e os patês com cara de interior da França.
Já é noite? Hora, então, de optar por algum endereço preterido antes. Que tal aqueles vários outros restaurantes, nos caminhos da cidade? O leitão do Luiz, na Villa Paolucci, que é preciso encomendar? A Estalagem do Sabor, com seu mineiro reinventado?
Tiradentes pede tempo. E nem falamos da maria-fumaça até São João del Rey, do pôr-do-sol com música clássica no Alto de São Francisco, das caminhadas na Serra de São José...
AGENDA TIRADENTINA
ATRÁS DA MATRIZ, Rua Santíssima Trindade, 201, tel. (32) 3355-2150
ESTALAGEM DO SABOR, Rua Ministro Gabriel Passos, 280, tel. (32) 3355-1144
OSCAR ARARIPE, Rua da Câmara, 92, tel. (32) 3355-1148
THEATRO DA VILLA, Rua Padre Toledo, 157, tel. (32) 3355-1275
TRAGALUZ, Rua Direita, 52, tel. (32) 3355-1424
TRATTORIA VIA DESTRA, Rua Direita, 45, tel. (32) 3355-1906
VILLA PAOLUCCI, Final da Rua do Chafariz, tel. (32) 3355-1350
VIRADAS DO LARGO, Rua do Moinho, 11, tel. (32) 3355-1111












