Mezzo italiano, mezzo gaúcho
A região de Bento Gonçalves mistura a nova sofisticação do Vale dos Vinhedos e as antigas tradições dos imigrantes do Vêneto
Matéria publicada na edição 100 (Fevereiro/2008) de Próxima Viagem
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A atual sofisticação da mesa gaúcha nesse pedaço, que fica a pouco mais de 100 quilômetros ao norte de Porto Alegre, guarda uma história de muitos revezes e pobreza. Os imigrantes italianos, sobretudo da região do Vêneto, começaram a chegar em 1875 e enfrentaram muita escassez. Um passarinho no espeto (origem do galeto atual), acompanhado de polenta (só farinha e água) e um vinho rústico e caseiro foi o cardápio básico por décadas. A produção de vinho colonial, de garrafão, deu um impulso à economia local. Mas foi só quando uma nova cultura do vinho surgiu na América do Sul, nos anos 90, é que os ventos mudaram de vez. Hoje, o Vale dos Vinhedos está mais chique - tem até um spa de vinho, franquia de uma grife francesa -, sem perder seu lado rural e simples.
Antes de conhecer o Vale dos Vinhedos, endereço das principais vinícolas do país, vale a pena fazer um "estágio" rápido numa pequena cantina, palavra que, para os italianos, designa um local que produz vinho, e não um restaurante. A Tonet, em Caxias do Sul, é uma boa pedida. Você será recebido por alguém da própria família, que tem prazer em mostrar os vinhedos, os tonéis e a cantina, e depois servir vinhos da casa. Se quiser, pode encomendar uma refeição típica, com direito a música regional (da Itália) e conversas em talian, o dialeto local, usado em família por toda a região.
Conhecer uma cantina pequena é uma ótima introdução para o passado e o presente da região. No Vale dos Vinhedos, a apresentação dos vinhos é bastante profissional. Na Casa Valduga, um curso de três horas aprofunda seus conhecimentos de enologia; na Miolo, é possível degustar diferentes uvas e safras e entender as diferenças mais evidentes entre elas; na Cave de Pedra, você adquire noções maiores da importância do armazenamento, e por aí vai.
Por causa dessa mudança de ares, nos últimos anos o Vale dos Vinhedos ganhou grandes hotéis. Primeiro, veio o charmoso Villa Michelon, com um ótimo restaurante, quartos com vista para vinhedos e estrutura para crianças. Em 2007, o Villa Europa abriu as portas, com estrutura de resort e um spa do vinho Caudalie. Há vinícolas que oferecem pouso também, e a melhor delas é a Don Giovanni, instalada numa casa de pedra com jeito de vila toscana e vista para o Rio das Antas. Em Garibaldi, de onde saem os espumantes mais premiados do país (como os da Chandon) e também os mais populares (da Peterlongo), há uma opção diferente de hospedagem: a Hostaria Casacurta, um preservado e elegante hotel da década de 50, inspirado nos châteaux do Vale do Loire, de restaurante bastante inspirado.
Assim como nas regiões vinícolas de outras partes do mundo, toda uma cadeia de serviços que combinam com o vinho surge entre as parreiras. No vale gaúcho, antigas moendas de fubá, lojas de queijos e restaurantes familiares servem o viajante enólogo. Para ter uma experiência inesquecível, faça reserva para almoçar numa das fazendas da Estrada do Sabor. São casas que colocam seus fogões de lenha e receitas de família à disposição dos visitantes, sempre acompanhadas de boa conversa e um bom vinho. É o caso da Osteria della Colombina, onde a dona, Odette Lazzari, cozinha e vende também ótimas geléias e conservas.
Outro costume de vinhedos alhures que combina perfeitamente com o Vale dos Vinhedos gaúcho é o piquenique. E é muito fácil prepará-lo. Primeiro, vá até os Caminhos de Pedra, uma estradinha turística em Bento Gonçalves, com casas antigas. A Casa Vanni, uma tecelagem à moda antiga, pode fornecer a toalha. Na Casa do Tomate, pegue um vidro de tomate seco. Há queijos e iogurtes na Casa da Ovelha; pães, biscoitos e doces na Predebon e salames e embutidos na Cantina Strappazon, a mais bela das casas do roteiro. A Lovara, importante marca de vinhos, tem endereço aqui e fornece a bebida para sua refeição. Depois, é só escolher um cantinho cênico para estender sua toalha.
Muito trabalho? Então, economize tempo e almoce na Casa Bertarello, também nos Caminhos de Pedra, ou num dos restaurantes italianos das cidades de Caxias do Sul, Bento Gonçalves, Antônio Prado (a cidade-cenário do filme O Quatrilho, referência forte na região), Cotiporã e Flores da Cunha. Você pode encontrar massas caseiras delicadas, carnes de caça e risotos encorpados. Mas não vai escapar de um farto galeto completo. E adorar!
ONDE É MELHOR
FICAR
CASACURTA HOTEL, Rua Luiz Rogério Casacurta, 510, Garibaldi, tel. (54) 3462-2166
POUSADA DON GIOVANNI, Est. de Pinto Bandeira, km 12, Vale dos Vinhedos, tel. (54) 3455-6293
VILLA EUROPA SPA DO VINHO, RS-444, km 21, Vale dos Vinhedos, tel. (54) 2105-2277
VILLA MICHELON, RS-444, km 19, Vale dos Vinhedos, tel. (54) 3459-1800
COMER
CANTA MARIA, RS-470, km 217, Bento Gonçalves, tel. (54) 3453-1099
CAVE MARSON, Vale dos Vinhedos, tel. 0800-704 1318 (só com reservas)
DON ZIERO, Vinícola Cordelier, RS-470, km 219, Bento Gonçalves, tel. (54) 3453-7593
GIUSEPPE, RS-470, km 221, Bento Gonçalves, tel. (54) 3463-8505
OSTERIA DELLA COLOMBINA (Odete Lazzari), Vale dos Vinhedos, tel. (54) 9121-1040 (só com reservas)












