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Próxima Viagem > Fevereiro/2008 > Com o coração nos pés

Lundu e Carimbó, as danças esquecidas

Na Ilha de Marajó (PA), antigos ritmos herdados de índios, africanos e portugueses resistem graças ao isolamento

Matéria publicada na edição 100 (Fevereiro/2008) de Próxima Viagem


Valdemir Cunha

O lundu em ação: leveza e colorido marajoara

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Para a maior parte dos brasileiros, a palavra Marajó evoca os búfalos que vivem nessa que é a maior ilha fluviomarinha do mundo. Para os paraenses, no entanto, Marajó é sinônimo de lundu e carimbó, duas danças folclóricas de forte tradição na ilha. De pequenas, as meninas já se acostumam com os rodopios e requebros que, mais tarde, poderão apresentar em shows em Soure e Salvaterra, principais cidades da ilha.
As coloridas e longas saias, de chita ou de algodão, e os cabelos longos e soltos das moças contribuem para dar leveza aos dois ritmos, sempre dançados por casais. Mas as semelhanças param aí. O carimbó, de origem indígena, mas com passos africanos e portugueses, é mais agitado e popular - com base nele surgiram ritmos como a lambada. Já o lundu, criado por escravos angolanos e filtrado por portugueses, é mais malemolente e sensual. Por décadas, a dança era chamada de "folguedo diabólico" e era proibida sua manifestação pública.

Os encontros e desencontros representados no carimbó e no lundu, sempre acompanhados de música ao vivo, animam as noites quentes de Marajó. Distante três horas de barco de Belém, a ilha de 50.000 quilômetros quadrados vive num quase isolamento, com vida própria. Soltos entre dois gigantes - o Rio Amazonas e o Oceano Atlântico -, os marajoaras acostumaram-se a viver de acordo com o ritmo das marés. Em ciclos de cerca de treze horas, ela determina a vazão ou a seca dos igarapés e rios, deixando ou não que o trânsito de barcos flua pela ilha.

NÚMERO 82: O BÚFALO VIROU TÁXI


Além dos barcos, enormes búfalos circulam por Marajó como meio de transporte, levando policiais no lombo ou conduzindo carga em carros de boi, ops, de búfalo. Presentes na ilha desde o século 19, vindos tanto da Itália como da Indochina (hoje, Vietnã), eles são mais numerosos que gente por aqui: 600.000 bovinos contra 140.000 humanos.
O búfalo é uma das fontes locais de proteína - o filé marajoara leva a carne e a mussarela do leite de búfala. Mas há mais riquezas na mesa: bem servida tanto de água doce como de salgada, a ilha aproveita também os peixes, como o suculento filhote, camarões, caranguejos e outros bichos que só vivem aqui. O mais conhecido deles é o turu, molusco mole que vem servido em caldo com cheiro-verde e limão. Para provar um pouco de tudo, o restaurante Delícias da Nalva, em Salvaterra, oferece um banquete marajoara com um pouco de tudo.
Além de ser parte fundamental da mesa local, o búfalo virou estrela de uma nova modalidade de passeio marajoara: o turismo rural. Assim como acontece no Pantanal Mato-grossense, o visitante se hospeda numa fazenda e acompanha a lida com os búfalos (que só assustam pelo tamanho, pois são mansos) e com o rústico cavalo marajoara. Os peões mostram a pesca da piranha e a focagem noturna de jacaré. É possível também ver de perto a produção de cerâmica marajoara, tradição nascida no século 3 a.C. - e que só resistiu, como o lundu e o carimbó, graças ao isolamento da ilha.