Em Diamantina, o patrimônio canta
Longe do circuito tradicional das cidades históricas, a terra natal de JK consagra-se também pelas serestas e corais
Matéria publicada na edição 100 (Fevereiro/2008) de Próxima Viagem
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As vesperatas acontecem aos sábados, num calendário que muda ano a ano. Podem ocupar três sábados num mês, dois no outro, sem muita ordem. É preciso ficar de olho na programação. Recomenda- se, também, reservar um lugar no Largo da Quitanda. As duas bandas que se apresentam, uma mirim e outra militar, tocam marchas e marchinhas, sucessos de mesa de bar (O Que É, o Que É, de Gonzaguinha, é obrigatória) e clássicos da MPB. Se, por alguma razão, você perder a vesperata, vai encontrar a música em Diamantina mesmo assim. Aos domingos de manhã, os seresteiros se encontram no Beco da Tecla, às vezes simultaneamente ao passeio das pastorinhas, meninas com menos de 10 anos que entoam antigas canções. Também nas manhãs de domingo, quando tem vesperata na noite anterior, há apresentação do Coral Arte Miúda na belíssima Igreja Nossa Senhora do Rosário, do século 18.
Assim como nas cidades mineiras enriquecidas pelo ouro, Diamantina teve seu rico patrimônio arquitetônico erguido no século 18. Visita imperdível é à Igreja de Nossa Senhora do Carmo. Nesse caso, o dinheiro obtido com a extração dos diamantes construiu altares folheados a ouro e comprou lustres de cristal na Boêmia e santos barrocos em Portugal. No colégio de meninas fundado em 1780 foi erguida uma passarela ligando seus dois sobrados, para evitar que as moças fossem vistas da rua (ou que a vissem, o que dá na mesma). Hoje conhecido como Passadiço da Casa da Glória, o chamado corredor do pudor é o marco mais famoso da cidade.
As moças que estudavam no antigo Colégio da Glória provavelmente já se distraíam com a música local. A tradição de cantoria é antiga. Firmou-se no século 19, sustentada por bandas militares, mas quase se perdeu com a modernização dos anos 40 e 50. Curiosamente, foi nessa época que ascendeu o mais ilustre homem da cidade, Juscelino Kubitschek, cuja casa em que viveu dos 5 aos 18 anos pode ser visitada. Também é aberta aos viajantes a residência da mais famosa mulher de Diamantina, a escrava liberta Chica da Silva, que viveu em Diamantina (então, Arraial do Tijuco) no auge da exploração do diamante, de 1755 a 1770. Na visita, conta-se como ela despertou uma paixão louca no contratador de diamantes João Fernandes. Mas, em vez de conquistá-la com serenatas, João foi mais direto: ele a cobria de diamantes mesmo.
NÚMERO 80: NOSTALGIA EM CONSERVATÓRIA
Eles vão chegando, conversam um pouquinho, dão algumas risadas, afinam uma corda aqui, limpam um trompete acolá e, quando se aproximam as 11 da noite, unem-se numa grande e irresistível seresta. Assim são os seresteiros de Conservatória (RJ), alguns na casa dos 80, outros na dos 18, seguindo uma tradição que começou por volta dos anos 30. Conservatória nem é uma cidade, e sim um distrito de Valença, e tem pouco menos de 4000 moradores. Mas tem o charme do casario colonial, da época do ciclo do café no Estado do Rio de Janeiro, um patrimônio que se diluiu pela região. Para completar a nostalgia, a réplica de um cinema dos anos 50 reproduz o clima da época com música e imagens. É o Cine Centímetro, com sessões sempre aos sábados, às 18h30, para aquecer antes da seresta.












