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As novas pirâmides

Nosso inigualável consultor fala sobre "destinos fabricados", como Dubai

Matéria publicada na edição 100 (Fevereiro/2008) de Próxima Viagem


OSVALDO PAVANELLI

Mr. Miles, nosso colunista mais viajado


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Querido mr. Miles: qual é a sua opinião sobre destinos "fabricados", como Dubai, sobre a qual li na última PRÓXIMA VIAGEM? Você não os considera disgusting, como eu?
Michele Favaro Mesquita, por e-mail

Well, my dear, observe sua questão com o devido distanciamento histórico: exceto pelos lugares cujas atrações naturais sobressaem aos olhos, todos os demais foram, de alguma maneira, fabricados. Don't you agree?
Ou você pensa que os césares, ao erguerem seus anfiteatros, seus panteões e seus palácios não queriam, certainly, chamar atenção para seu poderio, para a superioridade de seus arquitetos, para a beleza de suas concepções? And what about the pharaoes? Você imagina que eles ergueram aquelas pirâmides todas apenas por devoção a seus líderes falecidos? Ou não estariam eles chamando a atenção do mundo que conheciam para o extraordinário domínio de conhecimento que possuíam, prova concreta de sua superioridade em um determinado período da história?
De uma maneira ou de outra, honey, todos os vestígios do passado que hoje nos atraem e emocionam são obras "fabricadas" pela criatividade de nossa espécie, quase sempre como exaltação de seu próprio poderio.

A essa categoria, of course, pertencem os templos religiosos - do Angkor Vat, no Camboja, à Mesquita Azul, em Istambul -, que são retratos instantâneos da necessidade das civilizações de atribuir sua prosperidade momentânea às divindades em que acreditavam. Ou monumentos militares, como o Arco do Triunfo, em Paris, ou o Portão de Brandenburgo, em Berlim, que exaltam duvidosas conquistas belicosas e têm no sangue sua argamassa.
Eis por que me encanta Veneza, uma cidade de resistentes jogados ao mar, que tiveram a força de reerguer-se plantando alicerces em um solo improvável. Ou me dilaceram o coração, com igual respeito, as cavernas em que os cristãos pereceram na Capadócia, e os campos de extermínio de onde os judeus fizeram brotar inacreditáveis descendentes que hoje orgulham a Humanidade.
Você me perguntava sobre destinos feitos para o turismo, Michele.

Viajar, darling, é o ato de encontrar os mais nobres e os mais baixos registros de nossa inexplicável passagem por essas terras, esses gelos e esses mares que, por alguma razão, nos pertencem. As iniciativas de transformar lugares mortos em atrações artificiais são, again, retratos de poder na era do marketing. Se houver quem se interesse por eles, o tempo se encarregará de relativizá-los.
Orlando pode representar, num futuro longínquo, a luxúria dos Jardins Suspensos da Babilônia. Why not? O Burj el Arab, em Dubai, tem a chance de ganhar a reputação do Colosso de Rhodes, embora, ao que se sabe, meu amigo sheikh Mohammed al Makhtoum esteja planejando estripulias arquitetônicas que fariam Ramsés sentir-se um governante espartano. A nós, viajantes, resta o infinito prazer de visitar, além de tudo, as possíveis pirâmides que nosso tempo constrói. Porque, at last, elas são marcos de nossa passagem. E algum dia, of course, someone tentará decifrá-las.

QUEM É ELE?
Mr. Miles é o homem mais viajado do mundo. Ele esteve em 130 países e em sete territórios ultramarinos até sua última contagem, que, diga-se, há anos não é atualizada.